Melatonina deve ser usada em “último caso” no combate à insônia

Especialistas dizem que questões relativas à má qualidade do sono, como a exposição à luz e certos tipos de comportamentos, devem ser abordadas antes de apelar para o uso da melatonina para regular o sono.

Mas, se usada, o momento do início da produção natural de melatonina de cada paciente deve ser levado em consideração antes definir a dose indicada, afirmaram.

A melatonina pode ser comprada sem prescrição médica nos Estados Unidos, mas é controlada em outros países desenvolvidos, sendo tipicamente recomendada para as alterações dos padrões do sono, como o jet lag(inadequação do sono pela diferença súbita de fuso horário nas viagens que atravessam os meridianos) ou para alguns distúrbios do ritmo circadiano – uso regular.

A melatonina também tem sido considerada como algo próximo a uma panaceia, com alguns pesquisadores sugerindo que o hormônio pode tratar o câncer, a disfunção cognitiva e a obesidade .

No entanto, foi a explosão do uso da melatonina para regular o sono geral de pessoas saudáveis que levou os consumidores americanos a gastarem mais de 400 milhões de dólares em suplementos de melatonina em 2018.

Isso levantou questões de segurança entre os profissionais de saúde e levou ao questionamento se esse hormônio deve ou não ser usado para o jet lag e se o seu uso deveria ser coibido para as crianças.

O fato de o assunto estar em pauta levou a American Chemical Society a recentemente fazer um vídeo desconstruindo muitos mitos sobre a melatonina e seus efeitos, como a magnitude de seus benefícios na melhora do sono.

Agora, o Dr. José Cipolla-Neto, Ph.D., médico do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, e a Dra. Fernanda Gaspar do Amaral, Ph.D., professora da Universidade Federal de São Paulo, no Brasil, fizeram uma revisão aprofundada da literatura sobre a melatonina e sua utilização.

Além disso, os pesquisadores elaboraram uma série de recomendações, publicadas na edição de dezembro do periódico Endocrine Reviews, indicando a melhor forma de usar o hormônio, com orientações posológicas e os momentos mais eficazes para sua administração.

Contudo, houve questionamentos sobre se as pessoas devem tomar melatonina para regular o sono, sugerindo que, em vez disso, deveriam tentar controlar a exposição à luz durante a noite e até mesmo regular os níveis de iluminação das lojas.

Uma infinidade de efeitos

A enorme quantidade de pesquisas feitas com a melatonina nos últimos anos impressiona. O Dr. José e a Dra. Fernanda indicaram que foram publicados mais de quatro mil estudos nos últimos 20 anos, dos quais 200 eram ensaios clínicos controlados randomizados e 195 eram revisões sistemáticas.

Tem sido demonstrado que a melatonina influencia vários processos fisiológicos, como efeitos a jusante nos sistemas cardiovascular, reprodutivo, imunitário, respiratório e endócrino, bem como o metabolismo da produção de energia.

“A melatonina sincroniza a ordem temporal do nosso organismo tanto em termos diários como na escala temporal sazonal”, comentou o Dr. José em um comunicado de imprensa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O Dr. José e a Dra. Fernanda explicaram, portanto, que todas essas ações devem ser levadas em consideração tanto ao fazer experimentos laboratoriais como na realização de ensaios clínicos sobre o uso terapêutico da melatonina.

“Neste caso, acima de tudo, deve-se manter em mente que os efeitos da melatonina dependem não somente da via de administração e da concentração usada, mas também da hora de sua administração, entre outros fatores”, ponderou o Dr. José.

E, fundamentalmente, a variação diária dos níveis de melatonina é diferente entre as pessoas, disseram os pesquisadores.

Por exemplo, as pessoas chamadas de madrugadoras, que preferem acordar bem cedo, iniciam sua produção diária de melatonina antes das que preferem ficar acordadas até mais tarde, enquanto as pessoas que dormem mais tendem a produzir o hormônio durante períodos mais longos do que as que dormem menos.

Além disso, uma determinada dose de melatonina pode alcançar diferentes níveis plasmáticos entre as pessoas pelas diferenças farmacocinéticas, ou seja, de sua forma de absorção, distribuição, metabolização e eliminação.

Esses processos podem ser influenciados pela idade e pelo estado geral da pessoa, pela existência de quadros patológicos e pelo desempenho fisiológico do trato gastrointestinal, fígado e rins, indicaram Dr. José e Dra. Fernanda.

Se esses fatores não forem adequadamente considerados a eficácia clínica da melatonina será alterada, afirmaram os autores.

De fato, “o tratamento adequado de reposição hormonal regular da melatonina só é alcançado quando a dose e a apresentação são criteriosamente escolhidas, adaptadas à cada paciente e controladas de modo a exercer o efeito clínico desejado”, observou o Dr. José.

Qual é a melhor forma de usar melatonina?

Isso levou o Dr. José e a Dra. Fernanda a elaborar uma série de recomendações sobre como a melatonina deve ser usada na prática clínica.

A primeira preconiza que seja determinado o início da produção da melatonina, conhecida como DLMO (sigla do inglês, Dim Light Melatonin Onset), e sua duração em cada paciente, e que essas informações sejam usadas para orientar a prescrição. Isto porque, sem o DLMO como indicador do momento da administração, a melatonina pode avançar, atrasar ou mesmo não ter efeito sobre o ritmo circadiano endógeno, escreveram os pesquisadores.

No entanto, não costuma ser viável determinar o DLMO na clínica diária, portanto, os pesquisadores sugerem usar o horário que o paciente normalmente vai dormir como uma alternativa mais prática.

Como a maioria das apresentações da melatonina leva cerca de 45 minutos para alcançar a biodisponibilidade, os pesquisadores recomendam que a melatonina seja tomada aproximadamente uma hora antes da hora de dormir, sempre no mesmo horário.

Quanto à dose, os autores afirmaram não haver consenso na literatura.

O que se sabe é que os jovens que tomam de 0,1 a 0,3 mg de melatonina terão uma concentração plasmática na faixa de 100 pg/mL a 200 pg/mL, que é considerada como dentro da faixa fisiológica.

A dose de 1,0 mg resultaria em uma concentração plasmática de aproximadamente 500 pg/mL a 600 pg/mL, o que os autores dizem ser “muito mais alta do que a concentração fisiológica”.

Os pesquisadores observaram que, na realidade, uma ampla gama de doses é usada, dependendo da indicação para tomar melatonina e da apresentação do hormônio.

“Por exemplo, se o resultado for o deslocamento sustentado da fase de modo súbito, como desejado para o tratamento do jet lag, a administração de liberação rápida corretamente ajustada é perfeitamente adequada”, disseram o Dr. José e a Dra. Fernanda.

“No entanto, se o efeito desejado for o deslocamento sustentado da fase, por exemplo, no distúrbio do sono e vigília não de 24 h ou na disfunção circadiana em pessoas totalmente cegas, o efeito de sincronização exige que a melatonina seja tomada diariamente, de forma regular contínua (…) Para este propósito, a apresentação de liberação lenta ou de liberação dupla é a mais adequada”.

Existe indicação de tomar melatonina?

Ainda resta uma questão, contudo, sobre se a melatonina deve ser tomada por pessoas que não têm diagnóstico de doença ou mesmo se este é o tratamento mais adequado para os pacientes com indicação clínica.

O Dr. Satchidananda Panda, Ph.D. do Salk Institute for Biological Studies em La Jolla, Califórnia, e colaboradores recentemente publicaram um estudo feito com camundongos mostrando como a proteína melanopsina nas células da retina responde continuamente à luz.

“A melanopsina, que está sintonizada com a luz azul, essencialmente verifica se ainda há luz do dia e, se houver, informa o cérebro para evitar dormir e permanecer desperto”, disse o Dr. Satchidananda ao Medscape.

“Isso é feito de duas maneiras: uma é ajustando o relógio circadiano, informando que ainda é dia e a segunda informa a glândula pineal para diminuir a produção da melatonina”.

Embora o Dr. Satchidananda reconheça que a melatonina exerce uma “enorme influência” no sono, o pesquisador disse que a melatonina não deve ser vista como “panaceia”, acrescentando que “se fosse, então deveria ser fortemente regulamentado, o que não é o caso”.

O pesquisador continuou: “Este é o único hormônio produzido no corpo humano que não é fortemente regulamentado, e isso nos diz alguma coisa”.

“Isso diz que os benefícios para a saúde da melatonina são extremamente extrapolados além do que (…) os cientistas consideram aceitável ou o que já foi comprovado. E é fácil para os escritores e comentaristas da ciência se aterem a um hormônio e exagerarem a sua importância”.

Quanto à saber se a própria melatonina deveria ser direcionada para melhorar a produção de melatonina endógena ou se, por exemplo, a melanopsina seria mais apropriada, a discussão está aberta.

Embora o Dr. Satchidananda e colaboradores tenham conseguido criar uma substância que visa especificamente a melanopsina e induz um estado semelhante à escuridão fisiológica, o pesquisador indicou que “a melanopsina tem muitos outros efeitos além da melatonina”.

O Dr. Kenneth P. Wright Jr, Ph.D., diretor do Sleep and Chronobiology Laboratory da University of Colorado Boulder, concordou.

O Dr. Kenneth observou que a produção de melatonina continua seguindo um ritmo circadiano, mesmo na ausência de exposição à luz, destacando o fato de não existir relação direta entre as duas proteínas.

Não é nociva, mas não é tão eficaz

O Dr. Kenneth disse ao Medscape que “atualmente, não temos nenhuma evidência para dizer que tomar melatonina diariamente seja prejudicial, embora não haja ensaios clínicos multicêntricos em grande escala para realmente avaliar isso”.

Dr. Kenneth acrescentou que, no entanto, a melatonina em modelos animais tem demonstrado ser “muito segura”, e que, por exemplo, algumas pessoas com distúrbio de sono e vigília de 24 horas, a maioria cegas, “vêm tomando melatonina há décadas”.

No entanto, o Dr. Kenneth também ressaltou que tomar melatonina à noite pode ajudar as pessoas a adormecer, mas “não há evidências de que a melatonina ajude a manter o sono por longos períodos se o corpo já produzir este hormônio naturalmente”.

Consequentemente, o Dr. Kenneth acredita que a melatonina é algo que “não diria que deveria ser o primeiro passo se você estiver tentando ajudar alguém a melhorar o próprio sono”.

Em vez disso, deve-se examinar os fatores que podem perturbar o sono e os comportamentos em torno do sono, para que a melatonina não precise ser usada todas as noites.

O Dr. Kenneth explicou que a dificuldade de adormecer e/ou de acordar pela manhã pode se dar pela ausência de sono suficiente ou pode ser que o relógio biológico apenas esteja ajustado para adormecer em um horário muito mais tarde do que o adequado para as demandas diárias.

“Usando a luz, podemos mudar o relógio para mais cedo, de modo que o corpo se prepare para dormir e acordar antes; isso implica se expor à luz do sol pela manhã e diminuir a exposição à luz durante a noite”.

Como diminuir a exposição à luz

Para isso, o Dr. Satchidananda diz que há várias providências possíveis.

“A primeira é ativar o modo noturno em seus celulares, laptops, etc., à noite, para que a tela fique mais escura e mude para uma tonalidade alaranjada, digamos por volta das oito ou nove horas”.

“Isso também funciona como um bom empurrão para as pessoas se prepararem para o sono”.

No entanto, ir às lojas à noite poderia causar exposição das pessoas à luz e, consequentemente, desorganizar a preparação para dormir.

“Muitas lojas de departamento atualmente mudaram a iluminação para a luz LED azul por ser muito brilhante e fazer com os produtos pareçam mais atraentes”, explicou o Dr. Satchidananda.

“Essa luz, a milhares de lux de luz em muitas lojas de departamento (…) definitivamente diminui a produção de melatonina e redefine o relógio biológico e, em algumas pessoas, também pode aumentar os níveis de ansiedade, etc.”

Nas situações em que não é possível controlar a luz, “é aí que talvez seja útil ter um par de óculos de filtro azul”, acrescentou o Dr. Satchidananda, dizendo que até mesmo usar óculos escuros poderia ajudar, “embora pareça muito estranho”.

Além de assegurar que as pessoas usem pouca iluminação em casa à noite, Dr. Satchidananda acredita que seguir esses passos significa que “não precisamos esperar por um medicamento” para ajudar a regular o sono.

“Qualquer medicamento terá alguns efeitos colaterais, portanto, talvez seja melhor usar os medicamentos apenas nos casos graves, de migrânea ou algum outro tipo de fotofobia”.

O Dr. Kenneth concordou, observando que não recomendaria a melatonina para a maioria das pessoas, “a menos que já tenham tentado outras coisas, com auxílio médico, para ver qual seria a melhor estratégia para melhorar o sono, se esse for o objetivo”.

No entanto, Dr. Kenneth acrescentou que, se tudo mais falhar, “pode-se lançar mão da melatonina ou de terapias comportamentais mais sofisticadas para os distúrbios do sono”.

A exposição à luz deve ser regulamentada?

O Dr. Satchidananda acredita que a melhor estratégia seria regulamentar a exposição à luz noturna, embora as evidências sobre como a luz influencia o comportamento, o sono, a ansiedade e a depressão ainda não sejam suficientemente fortes para elaborar diretrizes específicas.

O Dr. Satchidananda disse que, por exemplo, atualmente não há orientações que recomendem que as lojas “diminuam a luz (…) durante a noite, embora saibamos que essa quantidade de luz tem graves efeitos neuroendócrinos adversos no cérebro e no corpo humano, com uma ação muito próxima da de uma toxina ambiental”.

O Dr. José e a Dra. Fernanda concordaram, escrevendo que “a atual sociedade urbana e os processos de produção industrial, como organizados, devem ser levados em conta”, ao avaliar os distúrbios do sono, pois ambos dependem da existência de luzes internas durante a noite.

No entanto, observou Dr. Satchidananda, “como não temos um número suficiente de estudos com humanos, não há embasamento para orientar essas lojas de departamento e drogarias sobre a quantidade de luz que deveriam usar à noite”.

“Ainda tem muito trabalho em ciência básica e pesquisa translacional” a ser feito, disse o pesquisador.

No entanto, Dr. Satchidananda acredita que “talvez em 5 a 10 anos, tenhamos um design inteligente para residências, fábricas, locais de trabalho, locais de compras, etc., que promoverão a saúde em vez de apenas iluminar a noite”.

As diretrizes foram apoiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. O estudo sobre a melanopsina foi financiado por subsídios dos National Institutes of Health norte-americanos ao Dr. Satchidananda Panda; uma bolsa da Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência para Megumi Hatori; por bolsas da Fondation Fyssen e da Catharina Foundation para Ludovic S. Mure. O financiamento de Leona M. and Harry B. Helmsley Charitable Trust, Glenn Foundation for Medical Research e dos National Institutes of Health facilitaram a geração de vários vírus e seu uso em estudos comportamentais murinos. O Dr. Satchidananda Panda é o autor do The Circadian Code, pelo qual recebe royalties. Os autores informaram não ter outros conflitos de interesses.

 

Fonte: medscape.com

Uma resposta para “Melatonina deve ser usada em “último caso” no combate à insônia”

  1. Oi amigos, eu tomo Melatonina para Insônia já fazem 3 anos e posso afirmar que a Melatonina só tem benefícios para a nossa saúde.

    Se mais alguém toma a mais de 1 ano fala ai também para trocarmos idéias e informações.

    Obrigado.

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