Uso de opioides, e não apenas o uso em excesso, ligado ao aumento do risco de fibrilação atrial

Chicago — O uso de opioides, mesmo durante um espaço de tempo relativamente curto, pode aumentar o risco de fibrilação atrial (FA) nos pacientes na terceira década de vida, sugere uma nova pesquisa.

Uma análise retrospectiva com mais de 850.000 veteranos nos Estados Unidos (média de idade de 38 anos) mostrou que 29% dos 3.000 participantes com fibrilação atrial haviam recebido prescrição de opioides, em comparação a apenas 15% dos que não tinham fibrilação atrial.

Além disso, após o ajuste por variáveis como comorbidades demográficas e de saúde mental, o uso de opioides, por si só, foi um fator de risco significativo de fibrilação atrial. Na verdade, os participantes com prescrição de opioides tiveram 34% mais propensão de ter essa doença cardiovascular (CV) do que os que não receberam prescrição de opioides.

Dr. Jonathan Stock

Embora existam inúmeros relatos de uso abusivo e/ou indevido de opioides e desfechos prejudiciais à saúde, um desfecho cardiovascular tão nocivo com o mero uso de opioides foi algo surpreendente, disse ao Medscape o primeiro autor do estudo, Dr. Jonathan D. Stock, médico do Yale New Haven Hospital, em Connecticut (EUA), especialmente sobre esse estudo de coorte.

“Ao projetar este estudo, pensamos que seria um pouco como um tiro no escuro; tentar identificar uma relação entre o uso de opioides e a fibrilação atrial em nossa população jovem, especialmente porque essa é uma doença de pessoas mais velhas. Mas a associação foi suficientemente robusta para superar o que eu percebia como uma barreira”, disse o Dr. Jonathan.

“Eu diria que a primeira lição é, embora tendamos a nos concentrar no uso excessivo de opioides quando pensamos sobre a epidemia de opioides, esta pesquisa e o trabalho de outras pessoas estão começando a deixar transparecer que o uso isolado de opioides pode ter um alto custo para as pessoas”, disse o pesquisador.

Os resultados do estudo foram divulgados antes de da apresentação do trabalho no congresso American Heart Association (AHA) Scientific Sessions 2018 .

Avaliando 857.000 prontuários

Dr. Jonathan observou que um estudo recente sugeriu a existência de uma relação entre o uso de opioides e a mortalidade cardiovascular. Por causa dessas descobertas, ele e equipe quiseram explorar as causas dessa associação.

“Acredita-se que um fator que contribui para essa associação seja o aumento do risco de arritmia cardíaca, como a fibrilação atrial, decorrente dos distúrbios respiratórios do sono que podem acompanhar o excesso de opioides”, escreveram.

Os pesquisadores avaliaram dados administrativos e clínicos de 857.283 veteranos depois do 11 de setembro, entre 25 e 51 anos de idade (87,3% homens, 59,0% brancos, 14,1% negros e 11,0% hispânicos). Os autores também examinaram os dados de prescrição de opioides de 2014 e 2015.

“Tem sido demonstrado que os veteranos usam opioides em quantidades maiores do que a população geral. Suspeitamos que os veteranos sintam mais dores musculoesqueléticas e que, talvez, os traumas psicológicos da guerra exacerbem essas dores”, disse o Dr. Jonathan.

Além disso, “usamos essa coorte representativa de veteranos especificamente porque a média de idade de 38 anos foi muito baixa”, informou o pesquisador.

“À medida que envelhecemos, acumulamos mais e mais alterações clínicas, o que tende a tornar esses tipos de estudos epidemiológicos mais nebulosos. Se tivéssemos analisado o uso de opioides e a fibrilação atrial em pessoas mais velhas, poderíamos ter encontrado mais variáveis como fatores de confusão”.

“Nós escolhemos essa população mais jovem para que, se encontrássemos alguma associação, o que de fato ocorreu, isso fosse mais robusto do que se tivéssemos feito a mesma coisa com uma população mais geral e mais velha”, explicou Dr. Jonathan.

O aumento do risco de FA

Os resultados demostraram que dos participantes, 3.033 (0,35%) tinham diagnóstico de fibrilação atrial. A prescrição de opioides foi mais frequente para os veteranos com fibrilação atrial do que para aqueles sem o quadro (29,2% vs. 15,4%).

odds ratio (OR) ajustada do risco de fibrilação atrial nos pacientes que tinham recebido alguma prescrição de opioides em comparação com os que não tinham foi significativa, de 1,34 (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 1,23 a 1,45; P < 0,001). A duração do tempo de uso de opioides, de acordo com a prescrição, não foi significativamente associada à prevalência da fibrilação atrial.

Dr. Jonathan observou que mais homens do que mulheres no estudo tinham fibrilação atrial.

“Sabe-se que ser mulher é, até certo ponto, fator de proteção contra a fibrilação atrial; é uma doença mais comum nos homens e essa associação peculiar também foi encontrada neste estudo. No entanto, mesmo após a correção pelo sexo, ainda foi identificada uma associação entre os opioides e a fibrilação atrial nesta população de veteranos”, disse o pesquisador.

Não houve diferenças significativas em termos de raça.

“Esta análise de dados nacionais demonstra a associação independente do uso de opioides para o diagnóstico da fibrilação atrial”, escreveram os pesquisadores.

“Dada a contribuição da fibrilação atrial para a incidência de eventos cardiovasculares, esses achados indicam uma via pela qual o uso de opioides pode contribuir para a mortalidade cardiovascular”.

Dr. Jonathan observou em um comunicado de imprensa que os resultados “indicam a importância” de prescrever opioides apenas em último caso.

“O uso de opioides, por si só, deve ser levado a sério e deve-se tentar não apenas restringir o uso inadequado e a overdose, mas assegurar que os pacientes recebam uma prescrição de opioides apenas quando a indicação for absoluta”, disse o autor.

Os pesquisadores estão planejando avaliar esses pacientes para ver se outras doenças cardiovasculares, como a doença coronariana, são mais prevalentes entre os pacientes que usam opioides, disse Dr. Jonathan ao Medscape.

Indagados se os pesquisadores diferenciaram os “usuários” opioides dos “que usavam indevidamente” na sua população de estudo, Dr. Jonathan disse que a equipe não estratificou os dois grupos.

“Só identificamos todos que usavam opioides no período do estudo, de um ano. E, simplesmente usar, foi o bastante para promover a associação que encontramos”.

“Estudo preocupante”

Comentando esses achados pela American Heart Association, o Dr. N.A. Mark Estes, médico do University of Pittsburgh Medical Center Heart and Vascular Institute, observou que este estudo “levanta a possibilidade diferenciada de que o uso de opioides possa estar associado com maior frequência de fibrilação atrial, uma arritmia incomum nessa população jovem”.

O Dr. Mark, que não participou da pesquisa, ressaltou que “a observação mais importante deste estudo” é que a média de idade dos participantes foi de apenas 38 anos.

Além disso, como não foram encontradas associações entre o tempo de uso de opioides e o quadro de fibrilação atrial, é possível que “mesmo o uso de opioides durante um curto lapso de tempo aumente o risco”, disse o comentarista. “É um estudo preocupante”.

O Dr. Mark observou que os pesquisadores também levantaram a hipótese de que o uso de opioides seja um fator que contribua para a apneia do sono e/ou para os distúrbios do sono, que por sua vez têm sido associados à fibrilação atrial, “porém seu mecanismo exato não foi pesquisado”.

Embora o autor tenha ressaltado que esta era uma análise retrospectiva, o médico disse considerar “apropriado emitir uma nota de advertência”. Ainda assim, mais estudos prospectivos serão necessários, acrescentou o comentarista.

Até então, “acho que todos os médicos e todos os pacientes precisam estar atentos a isso como mais uma razão para só usar opioides quando não houver alternativas disponíveis e nas doses mais baixas possíveis, pelo menor período de tempo”, concluiu o Dr. Mark.

O estudo foi financiado pela Veterans Health Administration. Os autores do estudo informam não ter relações financeiras relevantes.

American Heart Association (AHA) Scientific Sessions 2018: Abstract do poster Sa1079. A ser apresentado 10 de novembro de 2018.

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