Exposição passiva ao fumo ligada à depressão em crianças e adolescentes

Um estudo com mais de 1.500 estudantes em Montreal, no Canadá, mostrou que a exposição passiva ao fumo nas casas e nos carros foi significativamente associada a maior pontuação na escala de sintomas depressivos.

Também houve associação significativa entre os dois tipos de exposição passiva ao fumo durante a 5ª série ou ao início no estudo, e mais sintomas depressivos na 6ª série, bem como uma associação entre a 6ª e a 7ª séries.

No entanto, qualquer tipo de exposição, “em qualquer idade, não previu sintomas depressivos dois anos mais tarde”, informaram os pesquisadores.

“Como este foi um estudo prospectivo, pudemos acompanhar o grupo durante vários anos”, disse ao Medscape a copesquisadora Dra. Karen M. Wilson, médica, professora, chefe da pediatria geral e vice-presidente de pesquisa clínica e translacional da Icahn School of Medicine do Mount Sinai and Kravis Children’s Hospital, em Nova York.

Dra. Karen Wilson

“Encontramos uma relação significativa entre a exposição global e a ocorrência de depressão, bem como uma relação entre a exposição inicial e a depressão um ano mais tarde. Embora tenha sido interessante constatar que essa relação não se mantém até o segundo ano, existem algumas explicações possíveis para isso”, disse a pesquisadora.

Entre elas, o fato de os pesquisadores não terem avaliado as crianças que começaram a fumar durante o período do estudo.

“É possível que as crianças que estavam deprimidas tivessem maior probabilidade de começar a fumar; nós simplesmente não sabemos”, disse a Dra. Karen, que também é a diretora do American Academy of Pediatrics Tobacco Consortium.

Os resultados foram publicados on-line em 20 de outubro no periódico Nicotine and Tobacco Research.

80% relatam exposição passiva ao fumo

Em 2015, 80% dos jovens no Canadá entre 12 e 19 anos informaram ter vivido pelo menos alguns meses de exposição passiva ao fumo, indicaram os pesquisadores.

Além disso, a enquete Canadian Health Measures Survey 2007-2009 mostrou que as crianças e os adolescentes que não fumavam, mas tinham história de maior exposição passiva ao fumo, “apresentaram níveis urinários de cotinina duas a quase três vezes mais elevados do que os dos adultos não fumantes expostos ao fumo passivo”, escreveram os pesquisadores.

“As pessoas costumam pensar que a exposição passiva ao fumo é algo que afeta as crianças menores, principalmente as que têm doenças respiratórias, como a asma. Nós sabemos, por outros estudos, que a exposição passiva ao fumo também pode ser associada a outros problemas, como doenças mentais e psiquiátricas”, disse a Dra. Karen.

“Estávamos realmente interessados em avaliar se havia alguma associação entre a exposição passiva ao fumo e a ocorrência de depressão na adolescência”, acrescentou.

Os pesquisadores avaliaram dados de 1.553 participantes (média de idade ao início do estudo de 10,7 anos; 56% do sexo feminino) do estudo AdoQuest 1, que nunca tinham fumado ao iniciar o estudo. Os participantes foram recrutados de 29 escolas de primeiro grau de língua francesa na grande Montreal.

Todos foram acompanhados de 2005 a 2011, em cinco ondas. A primeira onda foi na 5ª série ou no início do estudo, a segunda, na 6ª série, a terceira, na 7ª série, a quarta, na 9ª série e a quinta, na 11ª série.

As avaliações foram feitas por meio de questionários com respostas dos próprios participantes, respondidos pelos alunos e seus responsáveis e pela pontuação na escala de sintomas depressivos (Depressive Symptoms Scale).

Entre a população do estudo, 400 começaram a fumar antes da 11ª série.

Crianças precisam ser protegidas

Após ajuste por sexo, escolaridade materna e nível socioeconômico da vizinhança, os resultados mostraram que a exposição passiva ao fumo nas casas foi significativamente associada a maior pontuação na escala de sintomas depressivos como a seguir:

A exposição passiva ao fumo nos carros também foi significativamente associada a pontuações ajustadas mais altas, como a seguir:

A exposição passiva ao fumo nas residências ou nos carros não teve associação significativa com sintomas depressivos em nenhuma das análises ajustadas do estudo aos dois anos, inclusive entre a 5ª e a 7ª séries, a 7ª e a 9ª séries e a 9ª e a 11ª séries.

Ainda assim, a “exposição passiva ao fumo tem efeitos deletérios na saúde física, e os resultados do estudo em tela levantam questões de que essa exposição também possa afetar a saúde mental dos jovens”, escreveram os pesquisadores.

“Este achado vem agregar à base de evidências, respaldando a noção de que essas crianças devem ser protegidas da exposição passiva ao fumo”, acrescentaram.

Os pesquisadores observaram que, embora mais pesquisas sejam necessárias para determinar se há uma associação de causalidade entre a exposição passiva ao fumo e os sintomas depressivos, “a continuação da implementação da proibição de fumar e as iniciativas educacionais para desencorajar o tabagismo em veículos quando há crianças presentes são justificáveis”.

Indagada se a equipe avaliou se algum dos pais tinha depressão, Dra. Karen, “Isso é um ponto importante, mas nós não temos essas informações disponíveis. Isso é certamente algo que gostaríamos de verificar no futuro”.

No momento, a pesquisadora observou que “é importante que os pediatras e médicos reconheçam” que a exposição passiva ao fumo tem grandes efeitos na saúde.

“A questão é orientar os pais sobre a redução da exposição dos filhos e não interromper a conversa quando as crianças atingirem três, quatro ou cinco anos, mas continuar falando durante a adolescência e os anos na escola,” disse a Dra. Karen.

Outra razão para não fumar

Convidado a comentar pelo Medscape, o Dr. Oscar G. Bukstein, médico, vice-diretor da psiquiatria do Boston’s Children’s Hospital, em Massachusetts, e professor de psiquiatria na Harvard Medical School, disse que classifica essa pesquisa como “preliminar”.

“O tabagismo e a depressão estão estreitamente ligados, ou seja, os fumantes têm maior probabilidade de depressão do que os não fumantes”, disse o Dr. Oscar, que não participou da pesquisa.

“No estudo em pauta, a preocupação advém do fato de que a depressão das mães não foi usada como controle. Assim, é possível estarmos vendo o reflexo de uma vulnerabilidade genética à depressão. Pode ser que a depressão materna esteja sendo transmitida, em vez do ato de fumar”, disse o comentarista.

Dr. Oscar, no entanto, acrescentou que há material “absolutamente” suficiente neste estudo, justificando que vale a pena se aprofundar mais no assunto.

“Os achados não são definitivos, porque ainda há algumas perguntas, mas seria relativamente fácil de dizer “vamos descobrir o tipo de psicopatologia que a mãe tem e controlar esse fator”, observou. “Dito isso, ao examinar esse estudo à luz da literatura prévia, é possível que haja uma relação”.

O comentarista disse que atualmente pergunta-se aos adolescentes se eles fumam, mas já pode ser a hora de também perguntar aos seus pais sua história de exposição passiva ao fumo.

“Provavelmente não é uma exposição pior do que o fumo passivo para a saúde pulmonar, mas pode também ter algum efeito na saúde mental. Já conhecemos outros riscos à saúde para dizer “não faça isso”. Bem, aqui temos mais um potencial motivo para não fumar”.

O estudo foi financiado pelo Canadian Tobacco Control Research Initiative e pelo Institut National de Santé Publique du Québec. Os autores do estudo e o Dr. Oscar Bukstein informaram não ter conflitos de interesses financeiros relevantes.

Nicotine Tob Res. Publicado on-line em 20 de outubro de 2018. Abstract

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