Histórico de amamentação associado a menor risco de acidente vascular cerebral

Mulheres na pós-menopausa que relataram ter amamentado têm risco 23% menor de acidente vascular cerebral (AVC) no futuro em comparação com aquelas que tiveram filhos mas nunca amamentaram, sugere um novo estudo observacional. Para as mulheres negras não hispânicas, esse risco é até 48% menor após ajuste para outros fatores de risco para AVC, observam os pesquisadores.

“Este estudo fornece dados para informar programas que visam reduzir os fatores de risco de AVC por meio da promoção de comportamentos saudáveis, incluindo apoio à amamentação culturalmente sensível entre populações que têm indevidamente o maior impacto com AVC”, disse ao Medscape a primeira autora, Lisette T. Jacobson, professora-assistente no Departamento de Medicina Preventiva e Saúde Pública da University of Kansas School of Medicine-Wichita.

“Na verdade, os resultados do nosso estudo sugerem que mulheres negras não hispânicas podem especialmente se beneficiar da maior duração da amamentação como um dos muitos fatores para ajudar a prevenir o AVC”.

Os resultados são de um estudo publicado on-line em 22 de agosto no Journal of the American Heart Association.

Women’s Health Initiative

Estudos anteriores que avaliaram o potencial efeito protetor da amamentação na mãe focalizaram amplamente os fatores de risco cardiovascular, mostrando que nove ou mais meses de amamentação estão associados a um risco reduzido de hipertensão, hiperlipidemia e síndrome metabólica, escrevem os autores. O aleitamento materno prolongado também está associado a reduções no risco de diabetes tipo 2 e a menor peso materno pós-parto. No entanto, poucos estudos analisaram especificamente o risco de AVC, observam eles.

“Este é um dos primeiros estudos a avaliar a amamentação e uma possível relação com o risco de AVC para as mães, bem como de que forma tal relação pode variar de acordo com a etnia”.

A análise incluiu 80.191 mulheres que participaram do estudo observacional Women’s Health Initiative e tiveram pelo menos uma criança. Destas, 2699 (3,4%) sofreram AVC durante um período de seguimento de 12,6 anos. Com média de idade inicial de 63,7 anos, 58% (n = 46.699) das mulheres referiram ter amamentado, com 51% amamentando por um a seis meses, 22% por sete a 12 meses e 27% por 13 ou mais meses.

Após o ajuste para múltiplos fatores de risco, as mulheres que amamentaram tiveram uma redução significativa no risco de AVC (hazard ratioHR, ajustado, de 0,77; intervalo de confiança, IC, de 95%, 0,70 – 0,83), com a associação mais forte observada entre as mulheres negras não hispânicas (HR ajustada de 0,52; IC de 95%, 0,37 – 0,71).

A redução do risco entre as mulheres hispânicas foi de 32% (HR de 0,68; IC de 95%, 0,30 – 1,54) em comparação com aquelas que não amamentaram, e de 21% (HR de 0,79; IC de 95%, 0,73 – 0,87) em mulheres brancas não hispânicas.

Uma maior duração da amamentação também foi associada a uma redução significativa do risco de AVC. Para aquelas que amamentaram por um a seis meses, a redução no risco de AVC foi de 19% em relação àquelas que nunca amamentaram (HR de 0,81; IC de 95%, 0,74 – 0,90), enquanto a redução foi de 25% com a amamentação por sete a 12 meses (HR de 0,75; IC de 95%, 0,66 – 0,85), e de 26% por 13 meses ou mais (HR de 0,74; IC de 95%, 0,65 – 0,83).

O efeito protetor da amamentação por um período maior pareceu ser mais forte em mulheres brancas não hispânicas e em mulheres negras não hispânicas (p < 0,01).

As reduções foram observadas após o ajuste para fatores como idade, raça/etnia, escolaridade, número de filhos, histórico familiar, exercício físico no início do estudo, tabagismo, índice de massa corporal (IMC) e uso de multivitamínico no início do estudo.

Lisette observou que o maior risco observado em mulheres negras não hispânicas é consistente com um risco maior de AVC, no geral, entre essas mulheres.

“Não foi surpreendente observar uma maior redução de risco entre as  negras não hispânicas, uma vez que essa população sofre o maior impacto com o AVC e, juntamente com as hispânicas, tem maiores taxas de hipertensão, obesidade, diabetes e inatividade física, que também são fatores de risco para AVC”, disse ela.

No entanto, os resultados são preocupantes diante das evidências mostrando que aquelas que parecem se beneficiar mais, as mulheres negras não hispânicas, na verdade, amamentam menos. Estudos mostram que apenas 35% das mulheres negras não hispânicas amamentam com seis meses pós parto, e apenas 17% amamentam com 12 meses pós-parto.

As taxas correspondentes para mulheres hispânicas são apenas ligeiramente maiores, com 51% amamentando aos seis meses e 26% aos 12 meses após o parto, comparadas com as taxas em mulheres brancas não hispânicas de 56% aos seis meses e 31% aos 12 meses.

American Academy of Pediatrics e a Organização Mundial da Saúde (OMS), entretanto, recomendam a amamentação exclusiva por seis meses e a amamentação contínua por um ano ou mais, citando múltiplos benefícios à saúde da mãe e da criança.

Benefícios conhecidos extensivos

Os autores ressaltam que os resultados do estudo não estabelecem necessariamente uma relação causal entre a amamentação e o risco de AVC. Sabe-se que a amamentação está associada a estilos de vida mais saudáveis no geral, e os autores observam que, no estudo, as mulheres que nunca amamentaram tiveram maiores taxas de tabagismo, maior IMC, menos exercícios e menor consumo de alimentos saudáveis.

“Os resultados do estudo poderiam ser parcialmente explicados pelo fato de que mulheres que amamentam tendem a ter uma vida mais saudável do que as que não amamentam, indicando que a amamentação é mais um marcador de risco do que um fator de risco”.

O fato de a associação ter permanecido estatisticamente significativa mesmo após ajuste para o risco conhecido, no entanto, sugere a necessidade de mais dados longitudinais para melhor compreender possíveis mecanismos biológicos que relacionam a amamentação e uma redução no risco de AVC, disse Lisette.

“Esta é certamente uma possibilidade, embora realmente precisemos de medições bioquímicas longitudinais para corroborar os achados epidemiológicos de que a lactação humana influencia positivamente as origens da doença”, explicou ela.

“Não estou familiarizada com quaisquer teorias notáveis sobre os mecanismos biológicos que possam explicar a redução do risco para esta população. Isso merece mais estudo em pesquisas futuras”.

Outras limitações notáveis incluem o número relativamente pequeno de casos de AVC no estudo e a exclusão de mulheres no Women’s Health Initiative que sofreram AVC grave antes do recrutamento no estudo.

Os resultados, no entanto, contribuem com informações potencialmente importantes na avaliação do risco de AVC de uma paciente, disse Lisette.

“O conhecimento de que uma paciente amamentou seus filhos e o número total de meses de amamentação em todas as crianças que ela teve ajudará os profissionais de saúde a avaliar o perfil de risco de uma paciente para AVC”.

“O que podemos fazer hoje é projetar e implementar programas culturalmente informados que mitiguem o risco de AVC e promovam comportamentos saudáveis, incluindo o apoio ao aleitamento materno, entre as populações que sofrem mais com o AVC”.

Marcador ou fator de risco?

Comentando os resultados para o Medscape o Dr. Larry B. Goldstein, presidente do Departamento de Neurologia e codiretor do Kentucky Neuroscience Institute – KY Clinic, da University of Kentucky, em Lexington, concordou com a sugestão de que a amamentação, ou a ausência de amamentação, pode ter mais um papel como um marcador de risco do que um fator de risco.

“Estudos usando esse tipo de desenho correm o risco de vários vieses e fatores de confusão não mensurados”, disse ele em entrevista.

“Mesmo que exista uma relação estatística nas análises ajustadas, não é possível distinguir entre um marcador de risco, que não leva diretamente à doença, e um fator de risco, que está diretamente ligado à doença”.

No entanto, “esta é uma análise bem conduzida dos dados de um estudo de coorte prospectivo”, acrescentou o Dr. Goldstein, ressaltando a necessidade de incentivar a amamentação.

“Há uma grande variedade de benefícios da amamentação para a criança e, provavelmente, para a mãe, embasando as diretrizes baseadas em evidências da American Academy of Pediatrics e da OMS”, disse ele.

“Embora seja prematuro concluir que o aleitamento materno conduz diretamente a uma redução no risco de AVC no futuro, este estudo não deve dissuadir as mulheres de amamentar, mas sim encorajá-las ainda mais a fazê-lo”.

O estudo foi financiado por Frontiers: The Heartland Institute for Clinical and Translational Research e pelaWichita Center for Graduate Medical Education-Kansas Bioscience Authority. O programa Women’s Health Initiative é financiado por National Heart, Lung, and Blood InstituteNational Institutes of HealthUS Department of Health and Human Services. Os autores e o Dr. Goldstein não declararam conflitos de interesses relevantes.

J Am Heart Assoc. Publicado em 22 de agosto de 2018. Artigo

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