Estudo internacional confirma que não existe nível seguro para consumo de álcool

Buenos Aires, Argentina — Não são dados para se comemorar. Aproximadamente uma em cada três pessoas com mais de 15 anos de idade consome álcool e este hábito causa 2,8 milhões de mortes por ano em todo o mundo, de acordo com a maior base de evidência científica mundial, publicada na edição de 23 de agosto do periódico The Lancet.[1]

Para os pesquisadores, não há nível “seguro” de consumo de bebidas alcoólicas.

As conclusões são alarmantes: o consumo de álcool foi, em todo o mundo, e durante 2016, o sétimo fator de risco para morte e anos de vida ajustados por incapacidade, representando 2,2% (IC de 95%, 1,5 – 3,0) de óbitos em mulheres e 6,8% (IC de 95%, 5,8 – 8,0) de óbitos em homens.

Na população de 15 a 49 anos o álcool se tornou o principal fator de risco. Pode-se atribuir a ele 3,8% (IC de 95%, 3,2 – 4,3) dos óbitos em mulheres e 12,2% (IC de 95%, 10,8 – 13,6) das mortes em homens. As três principais causas de morte atribuíveis nessa faixa etária foram tuberculose, acidentes de trânsito e lesões autoinflingidas.

Nas pessoas com mais de 50 anos de idade, as mortes por câncer atribuíveis ao álcool representam 27,1% (IC de 95%,21,2 – 33,3) dos óbitos em mulheres e 18,9% (IC de 95%, 15,3 – 22,6) das mortes em homens.

No entanto, o cenário epidemiológico muda de acordo com o índice sociodemográfico, uma medida de desenvolvimento global. Em países com um alto índice sociodemográfico, o câncer contribui com o maior impacto nas doenças atribuíveis em ambos sexos. Naqueles que estão nos quintis mais baixos, esse lugar é ocupado por tuberculose, seguido por cirrose e outras doenças crônicas do fígado.

O estudo não fez distinção entre cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas, foi assinado por quase 500 autores que participam do Global Burden of Disease Study 2016, e reuniu informações de 195 países.

Max Griswold

Em uma conversa com o Medscape, o professor de economia Max Griswold, um dos principais autores, e pesquisador do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da University of Washington, em Seattle, Estados Unidos, ficou surpreso com as taxas de consumo de alguns países da América Latina.

“Os argentinos tiveram a maior taxa de prevalência de consumo de álcool na América do Sul, com uma taxa consumidores que atingiu 94% dos homens e 90% das mulheres. Também fiquei espantado com os altos níveis de consumo entre os homens na Venezuela e na Colômbia, embora a prevalência de consumo seja muito menor nesses países, em comparação com o resto do continente. Entre os que bebem, eles têm alguns dos níveis mais altos, por exemplo, aproximadamente 3,5 doses por dia entre os venezuelanos”, disse Griswold.

A pesquisa levou em consideração as estimativas de uso de álcool, mortes e anos de vida ajustados por incapacidade atribuíveis ao álcool em ambos sexos, e cinco grupos etários entre 15 e 95 anos, ou mais. Foram incluídos dados de 694 fontes com informações sobre o consumo, bem como os resultados de 592 estudos que haviam avaliado a relação entre álcool e problemas de saúde, entre 1990 e 2016.

De acordo com os autores do ambicioso estudo multicêntrico internacional, o consumo de álcool é um importante fator de risco para a morbidade, contribuindo para a morte e a incapacidade em todo o mundo, devido à sua associação com múltiplos problemas de saúde:

  1. Doenças cardiovasculares: fibrilação e flutter atrial, acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico, AVC isquêmico, cardiopatia hipertensiva, cardiopatia isquêmica e cardiomiopatia alcoólica.
  2. Tipos de câncer: mama, colorretal, esôfago, laringe, lábio e cavidade oral, fígado e cavidades nasal e bucal.
  3. Outras doenças não transmissíveis: cirrose hepática por consumo de álcool, diabetes, epilepsia, pancreatite e transtornos por uso de álcool.
  4. Doenças transmissíveis: infecções respiratórias do trato inferior e tuberculose.
  5. Lesões intencionais: violência interpessoal e lesões autoinfligidas.
  6. Lesões involuntárias: exposição a forças mecânicas, intoxicações, incêndios, calor e substâncias quentes, afogamento e outras lesões involuntárias.
  7. Lesões relacionadas ao trânsito.

Ao realizar uma meta-análise e revisão sistemática do uso de álcool e 23 desfechos de saúde, que foram usados para estimar novas curvas de dose-resposta para riscos relativos, os pesquisadores determinaram que “o risco de mortalidade por todas as causas e por câncer, especificamente, aumenta com níveis crescentes de consumo, e o nível de consumo que minimiza a perda de saúde é zero”.

“Agora entendemos que o álcool é uma das principais causas de morte no mundo. Temos de agir com urgência para evitar esses milhões de mortes”, disse o Dr. Richard Horton, editor-chefe da Lancet.

O mito da dose saudável

O consumo de álcool para fins terapêuticos parece ser tão antigo quanto o próprio álcool, embora o risco de abuso também seja reconhecido desde tempos remotos. No século IV a.C., um médico ateniense escreveu: “Os deuses revelaram o vinho para os mortais para que ele seja a maior bênção daqueles que o usam corretamente, e o contrário para aqueles que não regulam seu uso”.

Os novos resultados estão em conflito com a crença generalizada de que consumir até duas taças por dia não é inócuo, mas também seria benéfico para a saúde cardiovascular.

“A visão generalizada dos benefícios do álcool para a saúde precisa ser revisada, particularmente porque métodos e análises aprimorados continuam a mostrar o quanto o consumo de álcool contribui para a morte e a incapacidade em todo o mundo”, alertaram os pesquisadores.

Os padrões de consumo têm particularidades em diferentes países e, para unificar os critérios, os autores definiram que o consumo médio se refere a uma “dose padrão”, definida como 10 g de álcool puro consumido por uma pessoa por dia, o que corresponde aproximadamente a 100 ml de vinho tinto, ou uma lata de cerveja de 375 ml, ou 30 ml de destilado, como o uísque.

Os autores encontraram um efeito protetor do álcool apenas na cardiopatia isquêmica, e possíveis efeitos protetores para diabetes e AVC isquêmico, embora nestes dois últimos casos não tenha sido alcançado significado estatístico. O risco de desenvolver outros problemas de saúde aumentou com a quantidade de bebidas alcoólicas consumidas ao dia.

Especificamente, o risco de desenvolver um dos 23 problemas de saúde relacionados ao álcool foi 0,5% maior entre aqueles que consumiram uma bebida padrão por dia, em comparação com os abstêmios. Em outras palavras, 914 de cada 100.000 pessoas com idades entre 15 e 95 anos desenvolveriam uma condição em um ano se não bebessem, mas no mesmo período, 918 pessoas em 100.000, que bebem uma bebida por dia, desenvolveriam um problema de saúde relacionado ao álcool.

O risco aumentou para 7% em pessoas que ingeriram duas doses padrão por dia e para 37% naquelas que aumentaram essa frequência para cinco. Segundo os pesquisadores, o nível de consumo de álcool que minimiza os danos é zero.

“O mito de que beber um ou duas doses ao dia é bom, é apenas isso, um mito que este estudo derruba”, disse Emmanuela Gakidou, outra autora do estudo, colega de Griswold na University of Washington, Washington.

Em um comentário na mesma edição da Lancet, Robyn Burton, do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociências, do Kings College London(Reino Unido), e o Dr. Nick Sheron, hepatologista clínico da University of Southampton, em Southampton (Reino Unido), disse que as conclusões do estudo são “claras e sem ambiguidades”.[2]

“O álcool é um problema de saúde global colossal, e as pequenas reduções nos problemas de saúde em níveis baixos de álcool são compensadas pelo aumento do risco de outros danos, incluindo o câncer”, escrevem os comentaristas.

Em sua conta oficial no Twitter, a Red de Atención a las Adicciones(UNAD) da Espanha retwittou o estudo e sentenciou: “Quantos dados e estudos mais são necessários para demonstrar uma ideia tão simples? O único nível recomendado de consumo de #álcool é ZERO”.

Problemas em Argentina e Brasil

A situação na Argentina parece ser particularmente preocupante na região. Os homens dividem com os alemães o terceiro lugar na classificação global de prevalência do consumo atual, com 94,3%, ficando atrás apenas dos dinamarqueses (97,1%) e dos noruegueses (94,3%). As mulheres, por sua vez, aparecem em quarto lugar, com 89,9%, superadas apenas pelas dinamarquesas (95,3%), norueguesas (91,4%) e alemãs (90%).

Nenhum outro país latino-americano entra no “top 10” nas duas categorias, embora Paraguai, Chile, Peru e Colômbia também excedam 80% em homens, e Chile e Peru entrem na faixa de 60% a 79,9% em mulheres. A título de comparação, no Brasil, as prevalências de consumo em homens e mulheres foram de 71% e 42%, respectivamente.

De qualquer forma, o impacto atribuível ao álcool nas doenças não necessariamente se correlaciona linearmente com a proporção de consumidores em uma população. No Brasil, as prevalências de consumo em homens e mulheres foram de 71% e 42%, respectivamente. No entanto, esse país lidera na região, em homens, os anos de vida ajustados por incapacidade, relacionados ao consumo de álcool, acima da Venezuela, Colômbia, Uruguai, Argentina e Peru.

Dr. Bruce B.Duncan

“É importante mudar o hábito de beber, porque aqueles que ingerem álcool muitas vezes exageram”, disse ao Medscape outro colaborador do estudo, o Dr. Bruce Bartholow Duncan, do programa de pós-graduação em epidemiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, Brasil.

“No Brasil, temos um grande problema com a violência e os acidentes de trânsito, ambos muito ligados ao consumo prejudicial do álcool. Por outro lado, muitas mortes por doenças crônicas poderiam ser evitadas se o consumo fosse reduzido ou eliminado”, acrescentou.

Da mesma forma, calculou-se que na Argentina as mortes anuais atribuíveis ao álcool cheguem a 4.700 entre as mulheres e 7.700 entre os homens. Um estudo recente também havia demonstrado que no país o consumo de bebidas alcoólicas previne 1424 mortes por ano causadas por doenças cardíacas coronárias, mas causa 935 mortes por AVC.[3]

 

Dr. Pascual Valdez

“Na Argentina, a principal razão para consultas por problemas relacionados com substâncias é o álcool. A percentagem global de consumo de álcool aumentou nos últimos anos, e a Argentina é o primeiro consumidor de álcool na América Latina com nove litros de álcool puro por habitante ao ano”, disse ao Medscape o Dr. Pascual Valdez, médico de terapia intensiva do Hospital Velez Sársfield, em Buenos Aires, presidente da Sociedad Argentina de Medicina (SAM) e um dos pesquisadores que contribuiu com o estudo da Lancet.

No ano passado, a Sociedad Argentina de Medicina e outras cinco sociedades médicas do país, assinaram uma declaração conjunta na qual advertiram que “as consequências socioeconômicas do consumo resultam em custos para o estado com prevenção da violência relacionada ao álcool, com saúde para aqueles que sofrem de doenças agudas e crônicas, e déficit econômico às empresas para recuperar a produtividade perdida”.

“O álcool é um produto que pode ser viciante e prejudicial à saúde, e não deve ser considerado um item de consumo comum ou necessidade”, disse o documento.[4]

 

Estratégias preventivas

Diante do alarmante mapa internacional do consumo de álcool e das consequências dele, os autores propõem a aplicação de diferentes estratégias, de acordo com as características de cada país e níveis de ação.

Em conversa com o Medscape, Griswold lembrou o conjunto de recomendações da Organização Mundial de Saúde, com base em evidências substanciais.[5]

O governo deve limitar as propagandas de álcool, taxar o produto e restringir as horas de venda. Alguns países já estão aplicando esse tipo de política, como a Escócia, com preços unitários mínimos, mas muitos outros países deveriam considerar o mesmo.

Por sua vez, Emmanuela Gakidou advertiu: “O álcool apresenta desdobramentos graves para a saúde da população no futuro, na ausência de ação política no momento. Nossos resultados indicam que o consumo de álcool e seus efeitos nocivos para a saúde poderiam se tornar um desafio crescente à medida que os países se desenvolvem mais, e a promulgação ou manutenção de fortes políticas de controle do álcool serão vitais”.

Os médicos também têm um lugar privilegiado para ajudar a reverter os números. Griswold resumiu: “A mensagem é bem simples: ‘beba menos'”. Segundo ele, os médicos devem adaptar esta mensagem de acordo com o risco individual.

“Também espero que os legisladores sejam mais conservadores nas recomendações para consumo seguro. Se conseguíssemos convencer todos a beber, no máximo, uma dose ao dia, poderíamos passar de 2,8 milhões de mortes ao ano para 120 mil mortes. Isso seria incrível e melhoraria substancialmente muitas vidas”.

Para o Dr. Valdez, “em primeiro devemos mudar a linguagem, porque seria mais sensato falar sobre o uso disfuncional, para dar o tom do que é uma situação difícil de ser delimitada, e que também representa um problema social com múltiplas dimensões, que os médicos devem abordar, em conjunto com profissionais de outras disciplinas”.

O médico argentino também sugeriu lembrar que o álcool é considerado uma droga psicoativa, assim como a maconha e a cocaína, mas é tão comum na vida das pessoas que se torna invisível como tal.

O Dr. Valdez considerou que o imposto ou o aumento dos impostos sobre o álcool, “parece ser uma das medidas com melhor custo-benefício para reduzir os efeitos prejudiciais em regiões como a América Latina, que tem altas taxas de consumo episódico excessivo, em comparação com outras medidas, como educativas, as intervenções destinadas a reduzir o consumo episódico excessivo, ou intervenções breves individuais”.

No trabalho que desenvolveu juntamente com duas colegas, a Dra. Silvia Cortese, da Asociación Toxicológica Argentina, e a Dra. Alejandra Sanchez Cabezas, presidente do Conselho de Saúde da Comunidade da Sociedad Argentina de Medicina, o Dr. Valdez estimou que salvar um ano de vida (tendo em conta uma equação que incorpora a deficiência) custa US$ 3870, aplicando políticas educativas individuais, tais como “intervenção breve”, enquanto se estima que as políticas de aplicação de aumentos de impostos custem aproximadamente US$ 277 dólares ao ano.

“Isso não significa deixar de fora outras medidas de intervenção, mas estamos estabelecendo uma comparação de custos”, disse ele.

Em comentário, Burton o Dr. Sheron também listaram propostas de soluções que consideram simples: “Os meios mais eficazes e custo-efetivos para reduzir efeitos nocivos do álcool são reduzir a acessibilidade por meio de impostos ou regulação de preço, incluindo o estabelecimento de um preço mínimo por unidade, seguido de perto pela regulação de comercialização e restrições à disponibilidade física do álcool”.

Eles acrescentaram que estas medidas não deveriam ser surpreendentes, dado que as mesmas estratégias se mostraram eficazes para o tabaco, e há evidências crescentes de que podem ser necessárias para controlar a obesidade.

O estudo foi financiado por Bill & Melinda Gates Foundation. Griswold, Gakidou, Dr. Horton, Burton, Dr. Sheron e o Dr. Valdez, declararam não possuir conflitos de interesses relevantes. 

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