Transtornos de humor na infância e na adolescência: quando a recusa aos tratamentos torna-se negligência parental

Um artigo na edição de junho do jornal da American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (AACAP) levantou uma questão bastante importante: a negligência dos pais na recusa ao tratamento psiquiátrico dos filhos, quando se trata de transtornos de humor.

A questão relativa aos transtornos do humor tem uma seriedade ainda maior, pois aqui cabem todos os preconceitos e “mitos”, como por exemplo a ideia de que tristeza e ideação suicida na adolescência fazem parte desta fase da vida. Isto não é real, e foi comprovando cientificamente que por volta de 15% dos adolescentes até os 18 anos, vão apresentar sintomas depressivos.[1]

Muitos pais não acreditam ou não querem aceitar, por diversos motivos, que seus filhos possam ter doenças psiquiátricas. Muitas vezes os pais creem que os problemas apresentados por crianças podem ser apenas uma alteração comportamental passageira, ou comportamentos típicos da idade, como “birra”, e que podem ser passíveis de controle. O exemplo mais comum é quando os pais acreditam que os filhos possam controlar a agitação psicomotora.

A negligência infantil é uma forma de mau-trato, e refere-se a situações em que os pais ou cuidadores acabam não satisfazendo as necessidades básicas da criança ou do adolescente, como prover saúde e educação. Para o autor do artigo, negligência médica é uma forma de negligência infantil, e pode ser definida como uma falha dos pais ou cuidadores em observar sinais de doença grave em menores de 18 anos, ou deixar de seguir conselho médico.[1]Um exemplo muito comum é quando pacientes que apresentam algum tipo de transtorno de humor chegam ao consultório medico com episódio misto, o que é muito comum na infância, e os pais se recusam a seguir o conselho de usar medicação.[2]

A recusa ao tratamento pode ter uma série de consequências negativas para os pacientes. Uma questão muito peculiar e característica dos transtornos do humor nas crianças mais velhas e nos adolescentes é a automutilação, que pode se apresentar por meio de cortes, queimaduras e até mesmo fraturas. As meninas se automutilam mais que os garotos. Um estudo com 440 alunos de duas escolas observou que 64% das garotas cometeram automutilação, em comparação a 36% dos meninos. Um dado importante deste estudo é que os adolescentes que se automutilaram reportaram mais sintomas de ansiedade e depressão, algo que pode ser interpretado como um episódio misto.[3]

A automutilação, muitas vezes, leva a uma confusão diagnóstica com o transtorno de personalidade borderline. Devemos entender que automutilação não é sintoma patognomônico de transtorno de personalidade borderline, assim como alucinação não é sintoma exclusivo de esquizofrenia.[4] Um recente estudo detectou que abuso sexual quase triplica o risco de automutilação.[5] Mais um motivo para que médicos e profissionais da saúde atentem para possível história de abuso e maus-tratos nesses pacientes. Entretanto, em alguns casos, esse tipo de comportamento pode acarretar culpa aos pais, que por diversas vezes minimizam ou ignoram a questão, o que acaba levando-os a não procurar ajuda médica.

A negligência parental com relação ao tratamento de transtornos de humor nos filhos pode ter consequências ainda mais graves, como ideações suicidas e tentativas de suicídio. Um estudo calculou a prevalência em uma população, com idade média de 14 anos, e concluiu que 57,4% dos adolescentes apresentaram ideação suicida, e 21,3% tentaram o suicídio.[6] Muitas vezes os pais nem chegam a saber destes sintomas, ou não os levam a sério, dependendo do meio com o qual o paciente tenta o suicídio. Alguns pais acreditam que os filhos “apenas querem chamar a atenção”, uma atitude negligente.

Pacientes com sintomas depressivos ou sintomas de agitação são muito mais propensos a ter dificuldades escolares. Estes pacientes muitas vezes apresentam velocidade de pensamento alterada, o que torna a atenção prejudicada. Estes sintomas podem ser confundidos com distúrbios do aprendizado, fazendo com que os pais e escola não compreendam a necessidade do tratamento adequado.

A diminuição de atitudes de negligência parental em relação ao tratamento dos transtornos de humor na criança e no adolescente passa pela diminuição do estigma e do preconceito, tanto das famílias quanto da classe médica. Uma atitude importante é a psicoeducação de famílias, professores e pedagogos. É importante salientar que a psiquiatria da infância e da adolescência não se resume apenas ao diagnóstico de transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (que é questionável, de acordo com diversos pesquisadores), mas também a quadros de transtornos de humor que podem ser muito graves, levando crianças ou adolescentes ao suicídio, como foi noticiado há pouco em um escola de São Paulo.

Neste caminho tortuoso da desinformação, e muitas vezes estigmatizado, é de extrema importância o papel, não apenas dos psiquiatras mas também dos pediatras, de educar, informar e desmistificar para as famílias, a doença mental na criança e no adolescente.

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