Crianças saudáveis com irmãos doentes podem esconder as próprias emoções

(Reuters Health) — Crianças saudáveis que têm irmãos ou irmãs com doença crônica podem suprimir as próprias necessidades à medida que se adaptam às mudanças na dinâmica familiar, concentrada em cuidar da criança doente, sugere uma revisão da literatura.

Embora seja perfeitamente lógico supor que as crianças saudáveis nessa situação possam viver emoções intensas, indo da raiva ao medo e ao estresse, grande parte das pesquisas realizadas até hoje se concentrou nas percepções dos pais sobre como as crianças se sentem. Nesses estudos, os pais tendiam a achar que os filhos saudáveis estavam lidando bem com a situação, observaram os pesquisadores no periódico Pediatrics, publicado em 26 de julho.

Mas o estudo em tela conta outra história, embasado nos diversos estudos que avaliaram a questão por meio de perguntas feitas às crianças – em vez de para os pais – sobre como elas se sentiam em relação ao convívio com o irmão doente.

“Descobriu-se que, para que as demandas emocionais dos irmãos saudáveis fossem atendidas, eles adaptaram o comportamento e a identidade ao longo do tempo, se adequando às necessidades familiares concentradas no irmão doente”, disse a primeira autora do estudo, Antoinette Deavin, da Lancaster University, no Reino Unido.

“Isso significa que, muitas vezes, a criança saudável entendeu que precisaria calar as próprias demandas emocionais”, disse Antoinette por e-mail.

“Isso pode fazer com que os adultos que as acompanham as vejam como plenamente funcionais e, consequentemente, com que sejam negligentes quanto à necessidade de atenção delas, enquanto ainda estão sofrendo”.

Tomados em conjunto, os 12 pequenos estudos da análise em tela ilustram o potencial, tanto de resiliência quanto de demandas emocionais não atendidas.

Quando os irmãos saudáveis de crianças doentes descreveram uma unidade familiar coesa, na qual todos colaboravam com os cuidados da criança doente, tenderam a descrever vínculos que aproximavam a família.

Alguns acharam que participar das atividades – seja ajudando nas tarefas domésticas, fazendo comida ou tomando conta do irmão e ajudando a cuidar dele – foi uma experiência positiva. Isso os fez sentir como se as circunstâncias contribuíssem para seu amadurecimento e para adquirir a capacidade de lidar com situações difíceis.

No entanto, quando os pais tentaram proteger as crianças saudáveis com algum irmão doente omitindo informações sobre a doença ou afastando-as do cuidado e do apoio ao irmão, elas tendiam a devolver o silêncio dos pais por meio da repressão da própria conturbação emocional.

Além disso, as crianças saudáveis se mostraram pouco inclinadas a verbalizar quaisquer problemas pessoais por medo de sobrecarregar ou irritar os pais.

O estudo não analisou os resultados de experimentos controlados estruturados para provar se, ou como, o convívio com uma criança portadora de doença crônica pode repercutir na saúde mental dos irmãos.

Ainda assim, os resultados destacam que a saúde emocional dos irmãos de crianças doentes pode depender da dinâmica específica de cada família, disse Jerica Berge, pesquisadora da University of Minnesota Medical School, em Minneapolis, que não participou do estudo.

Em alguns casos, as crianças saudáveis podem ter depressão ou ansiedade ou sentir que os pais estão dando tratamento preferencial para as crianças doentes, disse Jerica por e-mail. Em outros, a doença pode aproximar os irmãos, e as crianças saudáveis podem não ter problemas psicológicos.

Idealmente, o tratamento da criança com doença crônica deve ter uma abordagem centrada na família, considerando o amparo não apenas dos pais, mas também dos outros filhos, disse Jerica.

“Muitas vezes, recursos para os pais e para a criança com doença crônica são encontrados com facilidade, no entanto, os materiais adaptados para os irmãos não o são”, disse Jerica.

“Pode ser importante reavaliar como os especialistas em vida infantil dedicam seus esforços – eles também podem assumir o papel de navegador familiar (…) de modo que todos os membros da família sejam assistidos no tratamento de uma criança com alguma doença crônica”.

FONTE: https://bit.ly/2OiJ6ep

Pediatrics 2018.
Reuters Health Information © 2018

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