Clube de Revista: é possível diferenciar esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo e transtorno afetivo bipolar tipo I pelo perfil cognitivo?

Nesta seção o psiquiatra Sivan Mauer destaca e comenta estudos relevantes no campo da psiquiatria. O Dr. Mauer é mestre em pesquisa clínica pela Boston University School of Medicine, e doutorando em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Além da prática privada exercida em São Paulo e Curitiba, o Dr. Mauer é clinical faculty na Tufts University School of Medicine, Boston (EUA).

1. Associação entre eficácia de exercícios de resistência e sintomas depressivos: meta-análise e metarregressão de estudos randomizados

Os transtornos de humor são altamente prevalentes, afetando mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo assim uma grande fonte de absenteísmo e incapacidade para o trabalho, acarretando um prejuízo de aproximadamente 118 bilhões de dólares anualmente. Os sintomas de depressão estão significativamente associados com uma saúde debilitada, incluindo aumento de risco cardiovascular, doença de Alzheimer, diabetes tipo 2, mortalidade e não adesão aos tratamentos medicamentosos.

Os tratamentos para os diversos tipos de depressão passam pelo uso de medicação e psicoterapia. Alguns tipos de depressão não respondem a medicações disponíveis no mercado, como por exemplo, a depressão neurótica. Além disto, para a grande maioria dos pacientes os tratamentos psicoterápicos são inacessíveis, devido ao alto custo. Existe um contínuo interesse em tratamentos alternativos ou coadjuvantes para estas afecções.

O uso de exercícios é uma alternativa promissora para os sintomas depressivos. Estas intervenções não apresentam tantos efeitos colaterais, têm menor custo quando comparadas a algumas medicações e aos tratamentos psicoterápicos, além de trazerem benefícios para doenças cardiovasculares. No entanto, a magnitude do efeito ainda não é clara. Os benefícios dos exercícios aeróbicos para sintomas depressivos entre pacientes com ou sem doenças clínicas são bem estabelecidos, mas pouco se sabe sobre a associação entre exercícios de resistência e sintomas depressivos. Poucos estudos incluíram braços comparativos entre exercícios aeróbicos e de resistência no mesmo estudo.

Exercícios de resistência são geralmente desenvolvidos para aumentar força, massa muscular e resistência física. Algumas evidências suportam um efeito ansiolítico dos exercícios de resistência, além de melhora nos sintomas depressivos, porém não existem meta-análises de estudos randomizados que quantifiquem os efeitos deste tipo de exercícios em relação aos sintomas depressivos. O objetivo desta meta-análise foi estimar a associação da eficácia de exercícios de resistência e os sintomas depressivos.

Foram incluídos 33 estudos randomizados envolvendo 1.877 participantes. Exercícios de resistência foram associados com significante redução dos sintomas depressivos, com um tamanho de efeito médio de 0, 66 (IC de 95%, 0,48 – 0,33). O número necessário para tratar estabelecido foi de 4, o que significa um número bastante alto, sendo a intervenção perfeita igual a 1. No entanto a variabilidade do tamanho do efeito foi bastante alta, gerando um I2 = 76% (IC de 95%, 72,7% – 79%).

Para lembrar: 
O tratamento dos transtornos de humor, principalmente os que cursam com a predominância de sintomas depressivos, é normalmente bastante desafiador e difícil para médicos e pacientes. Algumas vezes os pacientes não respondem adequadamente às medicações existentes no mercado, seja por apresentarem muitos efeitos colaterais ou pela própria ineficácia da droga. Ter os exercícios de resistência como adjuvante é importante pelo efeito ansiolítico que podem proporcionar e para pacientes que não podem fazer atividades de alto impacto.

Referência: 
Gordon, B. R. et al. Association of Efficacy of Resistance Exercise Training With Depressive Symptoms: Meta-analysis and Meta-regression Analysis of Randomized Clinical Trials. JAMA psychiatry 75, 566 (2018).

2. É possível diferenciar esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo e transtorno afetivo bipolar tipo I pelo perfil cognitivo?

Esquizofrenia é uma doença mental grave, que se manifesta por sintomas positivos e negativos. O transtorno afetivo bipolar (TAB) Tipo I é um transtorno de humor caracterizado por graves oscilações de humor, sendo que alguns pacientes podem desenvolver sintomas psicóticos. O transtorno esquizoafetivo (TEA) tem características da esquizofrenia e dos transtornos de humor. Alguns autores consideram o TEA um subtipo de esquizofrenia ou TAB, outros uma patologia intermediária, em um continum dimensional entre esquizofrenia e o TAB. Pesquisas descrevem que estas doenças compartilham aspectos psicopatológicos, genéticos e neurobiológicos. O déficit cognitivo é uma característica em comum destas patologias. O perfil cognitivo pode prover uma nova compreensão psicopatológica no diagnóstico diferencial entre esquizofrenia, TEA e TAB.

Estudos comparando o perfil cognitivo entre pacientes com estas três doenças têm achados conflitantes. Alguns pesquisadores sugerem que estes pacientes têm alguma similaridade de déficit cognitivo e não sustentariam essa diferenciação neuropsicológica. Alguns estudos revelam que os déficits cognitivos do TEA se assemelham mais aos da esquizofrenia do que aos do TAB. Um outro estudo sugere que o TEA teria uma performance cognitiva intermediária entre esquizofrenia e TAB. Este estudo teve como objetivo identificar possíveis variações nas funções cognitivas entre pacientes com esquizofrenia, TAB e TEA. Além disto, uma análise de funções discriminatórias (AFD) foi usada para tentar determinar perfis cognitivos que diferenciem estes três grupos de pacientes.

Foram incluídos no estudo 227 participantes, sendo 88 controles saudáveis, 50 participantes com TEA, 48 com esquizofrenia e 41 com TAB. Os participantes foram avaliados cognitivamente usando a avalição breve de cognição em esquizofrenia (BACS). Os três grupos de pacientes apresentaram déficits significativos em todos os domínios cognitivos (memória verbal, memória de trabalho, velocidade motora, fluência verbal, atenção, velocidade de processamento, função executiva e escore do BACS). Entre os três grupos, os pacientes com esquizofrenia apresentaram a velocidade motora prejudicada, e os pacientes com TAB tiveram uma performance melhor em relação a atenção, velocidade de processamento, funções executivas e escore BACS. No entanto, a AFD não foi eficiente em distinguir pacientes entre os três grupos.

Para lembrar: 
Os achados deste estudo mostram que pacientes com TAB apresentam domínios cognitivos menos prejudicados do que pacientes com esquizofrenia e TEA. Estes achados coincidem com as observações de Kraepelin, no século XIX. Naquela época a denominação dele para esquizofrenia era demência precoce, pois relacionava a piora cognitiva dos pacientes precocemente.

Referência: 
Chen, C.-K. et al. Could schizoaffective disorder, schizophrenia and bipolar I disorder be distinguishable using cognitive profiles? Psychiatry Res. 266,79–84 (2018).

3. Criatividade artística e risco para desenvolver esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar e depressão unipolar: um estudo de caso-controle baseado na população sueca e análise sib-pair

A ideia de que as doenças mentais favorecem a criatividade, a inteligência ou o talento artístico é uma das mais antigas da psiquiatria. O problema é que a maioria das pesquisas até o momento eram baseadas em revisões retrospectivas, pequenos estudos de caso-controle e fontes biográficas. Estes estudos acabam tendo viés de seleção e informação, além de baixo poder estatístico. Uma revisão de 2011 concluiu que não havia evidência convincente para a associação em larga escala, e que estudos populacionais eram necessários. Recentemente, um estudo com a população da Islândia demonstrou evidências da associação genética entre criatividade e doença mental, sendo o risco poligênico para esquizofrenia e TAB associados com profissões que envolvem criatividade.

Este novo estudo, utilizando a população sueca, teve como objetivo testar a hipótese de que a criatividade está associada a doença mental grave. O estudo usa dados de estudantes que cursam matérias artísticas na universidade ou no ensino médio. Os casos foram definidos como indivíduos hospitalizados com o diagnóstico de esquizofrenia, TAB ou depressão unipolar, no período de janeiro de 1979 a dezembro de 2009.

Um total de 4.454.763 indivíduos foram incluídos no estudo. Destes, 194.039 (4,36%) preencheram os critérios amplos de criatividade, que consiste em terem estudado varias matérias com conteúdo criativo ou artístico, correspondendo a arte e mídia. Apenas 50.288 (1,13%) indivíduos preencheram os critérios estreitos de criatividade, que consistem em artes visuais, música, dança, teatro, filme, rádio e TV, e moda. Ainda do número total de participantes, 50.933 (1,14%) foram classificados como controles negativos, pois estudaram matérias de direito. Dos 194.039 estudantes que tiveram uma educação artística ampla, 147.477 tinham irmãos discordantes em relação a educação artística.

A análise sib-pair é um método popular para restringir a busca de genes que influenciam doenças complexas. Nesta análise foram incluídos 294.954 estudantes.

Indivíduos com TAB totalizaram 28.293 (0,64%) enquanto 20.333 (0,43%) foram diagnosticados com esquizofrenia, e 148.365 (3,33%) com depressão unipolar.

Comparados com a população em geral, indivíduos que estudaram matérias relacionadas a educação artística têm mais risco de desenvolver esquizofrenia (odds ratioOR = 1,90; IC de 95%, 1,69 – 2,12), TAB (OR = 1,62; IC de 95%, 1,50 – 1,75) e depressão unipolar (OR = 1,39; IC de 95%, 1,34 – 1,44).

Para lembrar: 
O estudo concluiu que alunos que frequentam cursos que envolvem matérias com maior conteúdo criativo têm maiores chances de desenvolvimento de transtornos do humor e esquizofrenia. Assim, pressupõe-se que o risco de suicídio também poderá ser maior entre esses jovens. É importante que não apenas médicos e profissionais da saúde, mas também educadores, fiquem atentos, fazendo sempre campanhas de prevenção ao suicídio.

Referência: 
Maccabe, J. H. et al. Artistic creativity and risk for schizophrenia, bipolar disorder and unipolar depression: a Swedish population-based case-control study and sib-pair analysis. Br. J. psychiatry 212, 370 (2018).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Novídades

Biopsico, todos os direitos reservados - 2017