Dispositivo ocular portátil pode ajudar no diagnóstico de esquizofrenia

Um dispositivo portátil usado por optometristas e oftalmologistas pode ajudar no diagnóstico de esquizofrenia, assim como ajudar a prever recaídas, e a avaliar gravidade dos sintomas e eficácia do tratamento, sugere uma nova pesquisa.

Os pesquisadores usaram eletrorretinografia por flash (ERG-F), uma técnica usada para examinar a função da retina, para comparar a atividade elétrica da retina em pacientes com esquizofrenia em relação a um grupo de pessoas saudáveis que atuaram como controles.

Os resultados mostraram anormalidades em vários aspectos da função da retina nos pacientes com esquizofrenia, incluindo diferenças na ativação celular e no tempo de resposta do cone.

“O que é novo no nosso estudo é o uso do dispositivo de ERG como uma ferramenta clínica”, disse ao Medscape a autora principal do estudo, Docia Demmin, que é doutoranda no Departamento de Psicologia da Rutgers University, em New Brunswick, Nova Jersey (EUA).

“Embora ainda não esteja pronto para o uso clínico rotineiro, com pesquisas adicionais ele pode ser adequado para clínicos e psiquiatras suplementarem suas avaliações diagnósticas de uma forma que pode ser um pouco mais objetiva do que perguntas no estilo de entrevistas, que visam alcançar as experiências dos pacientes”, disse Docia.

O estudo foi publicado on-line na edição de maio do Journal of Abnormal Psychology.

Janela para o cérebro

A ERG-F “provou ser útil na identificação de anomalias funcionais em populações neurológicas e psiquiátricas”, escrevem os pesquisadores.

A técnica “registra potenciais elétricos gerados por células da retina em resposta a estímulos de luz”, explicam. Os autores do estudo acrescentam que as gravações de ERG-F em condições fotópicas (adaptadas à luz e com saturação de bastonetes) indicam o funcionamento dos cones, enquanto os dados de condições escotópicas (adaptadas ao escuro) refletem o funcionamento dos bastonetes.

“Há muito tempo estamos interessados em visão e funcionamento ocular na esquizofrenia, e no que a retina poderia nos dizer sobre o que está acontecendo no cérebro”, disse Docia.

Ela observou que a retina faz parte do sistema nervoso central e compartilha os mesmos neurotransmissores que o cérebro.

“Uma vez que a alteração ou desregulação dos neurotransmissores está presente em distúrbios psiquiátricos, incluindo a esquizofrenia, olhar para a retina pode fornecer uma janela para o cérebro”, explicou ela.

Pesquisas crescentes sobre o uso do ERG-F para examinar a retina de pacientes com esquizofrenia demonstraram múltiplas anomalias no funcionamento das células desta estrutura, sugerindo mudanças relacionadas ao traço, bem como relacionadas ao estado.

Estes dados apontam para a atividade dos fotorreceptores, refletida na resposta da onda a como um marcador de estado para a esquizofrenia, e a atividade das células bipolares, mostrada pela resposta da onda b, como pertencente ao traço ou diátese.

Replicar e estender pesquisas anteriores

Os pesquisadores se propuseram a não apenas replicar estudos anteriores, mas também estendê-los, registrando os dados da ERG-F sob condições fotópicas e escotópicas não utilizadas anteriormente. Eles também incluíram um estímulo cintilante para isolar o funcionamento do cone.

Além disso, buscaram estudar a atividade do gânglio retiniano por meio da resposta fotópica negativa (RFN), uma “variável potencialmente importante para a esquizofrenia, porque assume-se que a atividade anormal nas células ganglionares da retina está presente na esquizofrenia”, escrevem eles.

Outro objetivo “foi pesquisar a utilidade da ERG no diagnóstico da esquizofrenia, uma vez que a ERG foi originalmente usada medicamente por oftalmologistas para testar a retinopatia diabética ou outras condições oculares”, disse Docia.

Sua utilidade na psiquiatria é que “permite o exame direto da retina de maneiras que não se pode fazer com um cérebro vivo”, acrescentou ela.

Os pesquisadores usaram o dispositivo RETeval (LKC Technologies), um instrumento aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, que não requer contato com a córnea ou dilatação pupilar, para avaliar as retinas de 25 pacientes com esquizofrenia. Todos foram recrutados a partir de internação, hospitalização parcial ou ambiente ambulatorial. Os achados foram comparados com os de 25 indivíduos saudáveis, com idades variando entre 18 e 60 anos.

Os pesquisadores usaram várias condições diferentes de intensidade de luz, cor e duração do flash.

O teste fotópico foi conduzido usando três condições: condição P1, que usou uma taxa de repetição de 1 Hz e nenhuma luminância de fundo; P2, que foi semelhante às condições utilizadas em estudos anteriores, embora os pesquisadores tenham usado um fundo menos intenso e uma taxa de apresentação de estímulo mais rápida para reduzir o tempo de teste; e PRFN, que utilizou um estímulo vermelho com fundo azul, apresentado em 3,4 Hz para medir a RFN.

Os testes escotópicos S1 (2,8 Td·s; 0,25 Hz), S2, (28 Td·s; 0,1 Hz), e S3 (280 Td·s; 0,05 Hz) utilizaram flashes brancos sem luz de fundo.

A Escala das Síndromes Positiva e Negativa (PANSS, do inglês Positive and Negative Syndrome Scale) foi usada para avaliar a gravidade dos sintomas dos pacientes, com escores baseados em um modelo de cinco fatores que envolve fatores positivos, negativos, cognitivos, de excitação e de depressão.

Diferenças significativas

Sob condições fotópicas, a amplitude da onda a foi reduzida nos pacientes com esquizofrenia em relação ao grupo controle entre as condições, com as condições P1 e PRFN permanecendo significativas após o ajuste da taxa de descoberta falsa (TDF).

Da mesma forma, as amplitudes da onda b durante condições fotópicas mostraram diferenças significativas entre os grupos, com o grupo da esquizofrenia demonstrando amplitudes reduzidas nas condições P1 e P2.

Sob condições escotópicas, o grupo com esquizofrenia demonstrou amplitudes reduzidas da onda a em relação ao grupo controle em todas as condições, mas a diferença permaneceu significativa apenas para a condição S3.

Para as amplitudes da onda b sob condições escotópicas, comparações post hoc revelaram amplitudes significativamente reduzidas no grupo da esquizofrenia para as condições S2 e S3, com uma diferença de tendência entre os grupos nas três condições escotópicas.

Não houve diferenças entre os grupos no tempo implícito da onda a sob condições fotópicas. No entanto, o grupo com esquizofrenia demonstrou latências mais longas no tempo implícito da onda b para a condição P2.

Os pacientes do grupo da esquizofrenia demonstraram redução da amplitude no teste com estímulo cintilante, em relação aos participantes do grupo controle, e atenuaram a negatividade da RFN em 72 ms após o estímulo.

O diâmetro médio da pupila no início do estudo foi menor no grupo com esquizofrenia do que no grupo controle. No entanto, o grau de aumento no tamanho da pupila em resposta à estimulação luminosa não diferiu entre os grupos.

Dispositivo “promissor”

A dimensão dos cinco fatores de sintoma negativo da Escala das Síndromes Positiva e Negativa (PANSS) revelou “grandes e significativas correlações” com a amplitude da onda a durante condições fotópicas e amplitude da onda b durante condições escotópicas, relatam os pesquisadores. Também se correlacionou com o tempo implícito da onda a durante as condições escotópicas, embora em menor grau.

Sintomas negativos proeminentes estiveram relacionados com uma amplitude mínima atenuada da RFN e amplitude da RFN quando medida a 72 ms após estímulo.

Além disso, a dimensão do sintoma de excitação da PANSS foi significativamente correlacionada com o tempo implícito da onda b durante a condição S2.

Após a correção da RFN, as duas correlações que permaneceram significativas foram sintomas negativos e amplitude da onda a durante condições fotópicas (PRFN) e sintomas de excitação e tempo implícito de onda b durante condições escotópicas (S2).

Não foram encontradas correlações significativas entre a dose equivalente da medicação (clorpromazina) e amplitudes fotópica ou escotópica da RFN, ou tempos implícitos.

Os pesquisadores resumem que o dispositivo de ERG-F demonstrou “a utilidade de um estímulo de cintilação para isolar a atividade relacionada ao cone, e o uso da RFN para isolar a atividade das células ganglionares da retina”, com resultados que foram independentes dos efeitos da medicação.

“Nosso estudo confirmou resultados de estudos anteriores que mostraram anormalidades no funcionamento da célula da retina na esquizofrenia usando o ERG, e também encontrou novas anormalidades”, relatou Docia.

O dispositivo tem “características promissoras” para uso em pacientes com esquizofrenia, como a velocidade com que as avaliações podem ser realizadas, bem como o fato de não ser invasivo – por exemplo, “não há necessidade de dilatar a pupila ou tocar a retina”, disse ela.

Papel causal?

Comentando sobre o estudo para o Medscape o Dr. Christopher von Bartheld, professor do Departamento de Fisiologia e Biologia Celular, e diretor do Centro de Excelência em Pesquisa Biomédica em Biologia Celular, Reno School of Medicine, na University of Nevada, disse que considera as “crescentes evidências de anormalidades visuais na esquizofrenia extremamente interessantes porque apontam para deficiências e experiências visuais anormais que antecedem o desenvolvimento dos sintomas da esquizofrenia por muitos anos, ou mesmo décadas”.

Isso sugere que “alterações da visão podem ter um papel causal e não são apenas um sinal de função cerebral alterada após os sintomas da esquizofrenia se manifestarem”, disse o Dr. Bartheld.

Ele expressou preocupação de que o estudo “não se refira a anormalidades visuais em outros pontos da via óptica, por exemplo, do córtex visual, como demonstrado por Dorph-Petersen et al”.

Além disso, “também sinto falta de referências ao profundo efeito da visão para a esquizofrenia”, disse o Dr. Bartheld. Por exemplo, a cegueira congênita pode conferir proteção contra a esquizofrenia, assim como a visão perfeita, “que parece ser a zona cinzenta de experiências visuais anormais precoces, um fator de risco específico e muito grande”.

Docia observou que estudos futuros deveriam se concentrar em utilizar a ERG-F não apenas na esquizofrenia, mas também na depressão maior e no transtorno bipolar, “para transformá-la em uma ferramenta sólida de diagnóstico”.

O estudo não recebeu financiamento externo. Docia Demmin, dois dos três outros autores, e o Dr. von Bartheld não declararam conflitos de interesses relevantes. Os demais autores do estudo são empregados de LKC Technologies.

J Abnorm Psychol. 2018;127:417-428. Resumo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Novídades

Biopsico, todos os direitos reservados - 2017