Aplicativo de smartphone é efetivo para tratar transtornos mentais graves

Pacientes com doenças mentais graves foram mais receptivos a iniciar tratamento utilizando um aplicativo para smartphone (mobile health – mHealth) do que iniciar sessões de tratamento no consultório em um ensaio clínico controlado e randomizado.

Além disso, os pacientes que utilizaram o aplicativo mHealth tiveram redução dos sintomas comparável àquela de pacientes que participaram de sessões de terapia em grupo.

“Agora é a hora de tentar integrar esta alternativa terapêutica na prática do mundo real”, disse o professor Dror Ben-Zeev, do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais e diretor do mHealth for Mental Health Programna University of Washington, em Seattle (EUA), ao Medscape.

O estudo foi publicado on-line em 25 de maio no Psychiatric Services.

Efetivo e aceitável

O estudo incluiu 163 pacientes com doença mental grave de longa data, incluindo esquizofrenia ou transtorno esquizoafetivo (49%), transtorno bipolar (28%) e transtorno depressivo maior (23%). A média de idade dos pacientes foi de 49 anos, 59% eram homens e 65% eram afrodescendentes.

Oitenta e um participantes foram alocados aleatoriamente para receber o “plano de ação para recuperação e bem-estar” (WRAP, do inglês Wellness Recovery Action Plan), uma intervenção em grupo amplamente utilizada, feita em consultório; e 82 receberam a intervenção baseada em evidência FOCUSfeita por meio de um smartphone.

O sistema FOCUS inclui avisos diários de autoavaliação e funções on-demandque podem ser acessadas a qualquer momento. O conteúdo de autocuidado tem cinco grandes domínios: vozes, que envolve lidar com alucinações auditivas via reestruturação cognitiva, distração, e hipnose guiada; humor, que envolve lidar com a depressão e a ansiedade com ativação comportamental, técnicas de relaxamento e conteúdo de apoio; sono, que envolve higiene do sono, relaxamento e psico-educação em saúde e bem-estar; funcionamento social, que envolve restruturação cognitiva da ideação persecutória, controle da raiva, agendamento de atividades, e treino e habilidades; e medicação, que envolve adequação de comportamento e recebimento de lembretes.

O conteúdo do FOCUS pode ser acessado em vários formatos como vídeos curtos ou mensagens de voz, ou por uma sequência de telas digitais com material escrito e imagens. As respostas dos usuários do FOCUS para as autoavaliações diárias são mostradas em um painel de controle digital. Os usuários recebem ligações telefônicas semanais de um especialista de apoio do mHealth que auxilia em todos os aspectos clínicos e técnicos da intervenção.

Os desfechos clínicos do estudo foram adesão ao tratamento em todas as 12 semanas de intervenção; satisfação três meses após a intervenção; e melhora nos sintomas clínicos, recuperação e qualidade de vida avaliados no início, e aos três e seis meses após o tratamento.

Os pacientes que utilizaram a ferramenta FOCUS mHealth apresentaram maior probabilidade de iniciar o tratamento (90% vs. 58%; < 0,001) e de permanecer em total adesão ao tratamento por pelo menos oito semanas (56% vs. 40%; p = 0,03) quando comparados aos que receberam sessões WRAP.

Os autores observaram que com o aplicativo para celular FOCUS os pacientes foram expostos ao conteúdo do tratamento com mais frequência, e por um período mais longo do que nas sessões em consultório.

Os pacientes em ambos grupos tiveram reduções “significativas e comparáveis” em psicopatologia geral (avaliadas pelo Symptom Checklist-9) e depressão (avaliada pela escala de depressão de Beck, segunda edição). Melhoras significativas na recuperação, determinadas com base nos scores da Recovery Assessment Scale foram vistas no grupo WRAP ao final do tratamento (três meses) e no grupo FOCUS aos seis meses de seguimento.

Os dois grupos reportaram alta satisfação com os tratamentos. Os pacientes dos dois grupos relataram que o tratamento foi agradável, interativo e os ajudou a se sentirem melhor.

Os psiquiatras compraram a ideia

Estes achados “comprovam que o mHealth pode ter um papel importante no cuidado à saúde mental no século XXI”, escrevem os autores.

Ben-Zeev liderou o time de pesquisadores para desenvolver o aplicativo de smartphone FOCUS.

“O aplicativo foi desenvolvido com dinheiro de pesquisa, e até agora estava disponível apenas para os participantes de nossos estudos. Estamos avaliando mudar isso e torná-lo mais acessível. Pode ser que façamos isso por meio do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da University of Washington“, disse ele ao Medscape.

Ferramentas digitais para saúde mental já estão sendo usadas por médicos hoje.  Adam Powell

Os achados deste estudo são “consistentes com a literatura sobre ferramentas digitais para saúde mental”, disse ao Medscape Adam C. Powell, presidente do Payer+Provider Syndicate, uma firma de consultoria baseada em Boston, Massachusetts (EUA), especializada em desafios operacionais encontrados por companhias de seguro saúde e hospitais.

“Outros pesquisadores já demonstraram diversas vezes que as terapias digitais são meios eficazes de melhorar o bem-estar mental”, disse Powell. “Ferramentas digitais para saúde mental já estão sendo usadas por médicos hoje.”

“O aplicativo FOCUS tem uma boa performance no estudo, é possível que seus benefícios sejam ainda maiores ao ser utilizado no mundo real. Fora do contexto do ensaio clínico, pode ser possível incentivar pessoas que não iniciaram uma intervenção presencial a optarem por uma intervenção digital como uma alternativa. No mundo real é possível encaminhar pessoas que não gostam do mundo digital, ou que não tenham boa adesão à ferramenta para uma intervenção presencial”, disse Powell.

Este estudo teve o apoio do Patient-Centered Outcomes Research Institute. Dror Ben-Zeev tem uma licença de intervenção de conteúdo e consultoria com Pear Therapeutics. Adam Powell declarou não possuir nenhum conflito de interesses relevante.

Psychiatr Serv. Publicado on-line em 25 de maio de 2018. Resumo

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