Os atos de comer em excesso e fumar compartilhariam o mesmo mecanismo de adição?

Pessoas com maior tendência genética para a obesidade parecem ter mais chances de serem fumantes ou ex-fumantes, segundo pesquisadores da França e do Reino Unido, em um estudo que sugere uma base biológica comum para as duas coisas.

Paul Brennan, do grupo de genética epidemiológica da International Agency for Research on Cancer, em Lyon (França), e colegas, examinaram dados de quase 450.000 indivíduos de dois estudos genéticos.

Eles descobriram que para cada unidade a mais de índice de massa corporal (IMC) determinada geneticamente, existe um risco 18% maior de ser fumante ou ex-fumante. Além disso, o aumento também esteve associado com maior intensidade do uso de tabaco, quase um cigarro a mais por dia.

Resultados similares foram observados para a circunferência abdominal.

Pesquisadores dizem que as associações “parecem ser ligadas primariamente à um único cluster de polimorfismos de nucleotídeos nas vias neuronais”, o que “sugere uma base biológica comum para comportamentos aditivos, como a adição à nicotina e à grande ingestão calórica.

“Isto poderia resultar em fumantes com sobrepeso mantendo o hábito de fumar mais intenso como resultado de uma predisposição genética ao comportamento compulsivo”, escreveram eles em artigo publicado on-linepelo BMJ em 16 de maio.

Descobertas têm implicações para a saúde pública

Fumantes têm menor índice de massa corporal, em média, que os não fumantes, mas tendem a ganhar peso após pararem de fumar. Contudo, os que fumam mais cigarros tendem a ser mais pesados do que os que fumam menos, dizem os pesquisadores.

A influência da obesidade no comportamento de fumar é difícil de avaliar em estudos observacionais tradicionais, por causa da interferência de fatores de confusão e de causalidade reversa relacionados com outros fatores de estilo de vida, como inatividade física ou dietas pouco saudáveis, explicam.

Para ultrapassar estas limitações, eles conduziram um estudo de randomização Mendeliana, onde foram observados os proxies genéticos para o IMC, além das medidas atuais dos participantes.

Mais especificamente, eles coletaram dados antropométricos, de saúde, de estilo de vida, e genéticos de 372.791 indivíduos de 40 a 96 anos de idade, de descendência europeia do estudo UK Biobank. Os participantes também responderam a perguntas sobre o próprio comportamento em relação ao tabaco.

A mediana de idade dos participantes do estudo UK Biobank foi de 58.0 anos, e 53,7% eram mulheres. O IMC médio foi de 27,4 Kg/m2 e a média da circunferência abdominal foi de 90,4 cm. No geral, 45,3% já haviam fumado e 10,1% eram fumantes. Os fumantes iniciaram o uso de tabaco aos 17,3 anos, em média. Fumantes e os que já fumaram reportaram um consumo médio de 15,8 e 18,4 cigarros/dia, respectivamente.

Os achados foram então replicados em 74.035 participantes no consórcio Tobacco and Genetics (TAG), que incluía os mesmos parâmetros de comportamento tabágico que o estudo UK Biobank.

No estudo UK Biobank, cada aumento do desvio padrão determinado geneticamente para o IMC foi associado com um aumento significativo do risco de ser um fumante (odds ratioOR, de 1,24; p < 0,001) ou já ter fumado (OR de 1,18; p < 0,001) quando comparados com os que nunca fumaram.

Estes achados foram replicados nos dados do TAG, onde cada aumento do IMC geneticamente determinado estava associado com um aumento significativo do risco de ter fumado (OR de 1,19; p = 0,003).

No UK Biobank, os resultados também mostram que cada aumento do desvio padrão determinado geneticamente para o IMC estava associado com uma maior intensidade do uso de tabaco, com 1,14 cigarros extras/dia para fumantes, e 0,88 cigarros/dia para os ex-fumantes (p < 0,001 para ambos). E o aumento da circunferência abdominal determinado geneticamente foi associado com uma maior intensidade no uso de tabaco com o consumo adicional de 0,83 cigarros por dia nos fumantes (p = 0,05) e 1,09 cigarro por dia nos ex-fumantes (p < 0,001).

Resultados similares foram observados novamente nos dados do TAG, com 1,54 cigarros extras/dia para cada aumento do desvio padrão para aumento da circunferência abdominal determinado geneticamente (p = 0,002).

Estes resultados sugerem fortemente que maior adiposidade influencia o comportamento tabágico, e a ligação entre obesidade e tabagismo poderia ter implicações para as estratégias de controle de peso e prevenção do tabagismo, concluem os pesquisadores.

Este estudo teve apoio do Cancer Research UK e do National Institute for Health Research (NIHR) Bristol Biomedical Research Centre, localizado no University Hospitals Bristol NHS Foundation Trust e na University of BristolOs autores declararam não possuir nenhum conflito de interesse relevante.

BMJ. 2018;361:k1767. Artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Novídades

Biopsico, todos os direitos reservados - 2017