Taxas de cura de psicose são muito maiores do que estimativas prévias

As taxas de incidência de remissão e cura para adultos após episódio inicial de psicose (EIP) são muito maiores do que estimativas prévias—embora ainda haja um longo caminho pela frente, sugere uma nova pesquisa. A meta-análise de 79 estudos mostrou uma taxa agrupada de remissão de 58% em cinco anos de acompanhamento entre mais de 12.000 pacientes com episódio inicial de psicose. Uma revisão sistemática publicada em 2012 mostrou uma taxa média de remissão de 40%.

No presente estudo, que incluiu mais de 9.600 pacientes, a taxa agrupada de cura em uma média de sete anos de acompanhamento foi de 38%, vs. a taxa bem menor de 13,5% reportada em uma análise em 2013. Além disso, a taxa de cura foi 30% no subgrupo de pacientes com episódio inicial de esquizofrenia.

“Nosso instinto original, baseado em dados prévios, era ligeiramente pessimista, mas ficamos satisfeitos de ver que nossos dados indicaram resultados bem mais positivos,” disse ao Medscape o autor principal do estudo John Lally, do Departamento de Estudos sobre Psicose do Institute of Psychiatry, Psychology, and Neuroscience do King’s College em Londres (Reino Unido).

 

Dr. John Lally

 

“Estas informações são importantes, não apenas para os pacientes, mas também para familiares e cuidadores. As taxas de cura são melhores do que previamente sugerido, e acredito que esta é uma mensagem mais esperançosa,” completa Lally. Entretanto, a análise também demonstrou que as taxas de cura não melhoraram nos últimos 20 anos, “levantando questões sobre a eficácia dos serviços,” escrevem os pesquisadores.

“Nós questionamos que deficiências existem atualmente na forma como estamos tratando pacientes para garantir que eles alcancem a cura,” acrescenta Lally. Os achados foram publicados on-line no British Journal of Psychiatry.

 

Boa e más notícias

 

“Até onde sabemos, somente três revisões sistemáticas e duas meta-análises previamente consideraram cura ou remissão de episódio inicial de psicose e/ou esquizofrenia”, escrevemos pesquisadores.

Eles observam que estes estudos utilizaram definições diferentes para desfechos e incluíram pacientes com episódio inicial de psicose e aqueles com vários episódios psicóticos, o que caracteriza um forma mais crônica ou resistente ao tratamento do transtorno. Lally observou que o novo estudo é a primeira meta-análise a examinar taxas de remissão e cura apenas em pacientes com episódio inicial de psicose e/ou episódio inicial de esquizofrenia.

Os pesquisadores analisaram 79 estudos totalizando 19.072 pacientes com episódio inicial de psicose, incluindo esquizofrenia e psicose afetiva. Todos os estudos tiveram um período de acompanhamento de ao menos 12 meses, e foram publicados desde o estabelecimento do banco de dados até junho de 2016. Entre os estudos, 44 informaram taxas de remissão, 19 taxas de cura e 16 informaram ambas, com algumas sobreposições.

Um dos objetivos primários mostrou uma taxa agrupada de remissão de 57,9% (intervalo de confiança, IC, de 95%, 52,7 – 62,9). Após analisar apenas os 25 estudos que utilizaram critérios de remissão do Remission in Schizophrenia Working Group, a taxa agrupada foi semelhante, 56,9% (IC de 95%, 48,9 – 64,5). A taxa agrupada de cura, o outro objetivo primário, foi de 37,9% (IC de 95%, 30,0 – 46,5).

Em análises de subgrupos, as taxas de prevalência de remissão foram de 56,0% e de 78,7% naqueles com esquizofrenia e psicose afetiva, respectivamente. As taxas de cura foram de 30,3% e de 84,6%. As maiores taxas agrupadas de remissão foram provenientes de estudos conduzidos na África (73,1%), seguidas de estudos realizados na Ásia (66,4%) e na América do Norte (65,2%).

Apesar disso, a América do Norte teve maiores taxas de cura (71,0%) do que Ásia (35,1%), Austrália (28,1%) e Europa (21,8%). Não houve diferença entre taxa de cura global por período de estudo, em média por volta de 59% antes de 1976 até 2016. Entretanto, as taxas de cura globais diminuíram de 44,5% antes de 1976, e de 45,2% no período entre 1976-1997, para 32,1% no período de 1997-2016.

“Este achado indica que os cuidados intensivos e dedicados dos especialistas prestados a pacientes com episódio inicial de psicose nas duas últimas décadas não resultaram em melhores taxas de cura,” escrevem os pesquisadores. Lally salienta que eles não tinham informação sobre intervenções utilizadas para pacientes individuais ou sobre tratamentos que estes tenham recebido ou não durante o período de acompanhamento.

“O que imagino ter acontecido é que muitos pacientes demoram a iniciar o tratamento com clozapina, que é a única medicação eficaz para esquizofrenia resistente a tratamento. Esta pode ser a causa da falta de melhora das taxas de cura nos últimos 20 anos, que permanecem bastante altas”, acrescenta ele. Os pesquisadores estão agora examinando mais detalhadamente a razão desta taxa não ter melhorado, e irão continuar conduzindo a meta-análise sobre taxa de reinternação após episódio inicial de psicose.

 

“Verdadeiro desafio”

 

O Dr. Paddy Power, do St. Patricks University Hospital e do Departamento de Psiquiatria do Trinity College, em Dublin (Irlanda), escreve em um editorial de acompanhamento que, apesar dos pesquisadores terem “contribuído para a compreensão” de algumas questões sobre episódio inicial de psicose, outras não foram respondidas. “A meta-análise forneceu uma base de evidências robusta em relação aos resultados em geral para pacientes com episódio inicial de psicose”, escreve o Dr. Power. Apesar do novo estudo ter mostrado “diferenças intrigantes nos resultados” entre os continentes, “ele não é capaz de fazer distinções em nível individual”, acrescenta ele.

“Idealmente, o que nós e nossos pacientes precisamos agora é de uma base de evidências que possa nos informar melhor em nível individual sobre como os diferentes tratamentos e escolhas de estilos de vida impactam os resultados.” Além disso, Dr. Power nota que a cura não é a ausência de sintomas psicóticos, mas sim, um processo complexo, que necessita de mais de “uma resposta passiva ao tratamento.”

“Não necessariamente significa um retorno à trajetória de desenvolvimento que o indivíduo apresentava antes, pois o que é necessário é uma adaptação a um novo conjunto de circunstâncias”, escreve ele. Para a cura ser bem-sucedida, o paciente precisa aceitar sua experiência prévia de uma maneira que evidencie os fatores contribuintes, e que diminua o risco de episódios adicionais, escreve o Dr. Power. Entretanto, “influenciar e medir estes resultados é o verdadeiro desafio.”

Os autores do estudo e o Dr. Power não relatam conflitos de interesses relevantes.

 

Br J Psychiatry. 2017;211:331-333, 350-358. Resumo, Editorial

Fonte: Taxas de cura de psicose são muito maiores do que estimativas prévias – Medscape – 1 de março de 2018.

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