Ganhar álcool dos pais não evita beber de modo inconsequente

Os pais podem ficar tentados a permitir que os filhos adolescentes ocasionalmente bebam álcool, no intuito de ensinar hábitos de consumo responsável, mas um novo estudo sugere que isso pode ter o efeito oposto. Comparados aos jovens que não recebem cerveja ou vinho da mãe e do pai, os adolescentes que o recebem são mais propensos a ingerir bebidas alcoólicas de outras fontes, segundo o estudo.

E quando os pais dão as bebidas, os adolescentes são duas vezes mais propensos a beber em excesso ou a exibir sinais e sintomas de transtorno de uso de álcool do que os jovens que não têm acesso fácil a bebidas alcoólicas. “Nosso estudo mostra que não há nenhum fundamento teórico para os pais darem bebidas alcoólicas para os filhos adolescentes menores de idade”, disse o autor do estudo, Richard Mattick, PhD, do National Drug & Alcohol Research Centre da University of New South Wales, em Sydney (Austrália).

“Para reduzir o risco dos efeitos nocivos do álcool os pais devem evitar dar bebidas alcoólicas aos jovens”, disse Mattick por e-mail. “Dar o exemplo de um consumo responsável de álcool, impor regras estritas relacionadas às bebidas alcoólicas, e controlar o comportamento do jovem, também podem minimizar os riscos deles usarem ou abusarem de bebidas alcoólicas”.

Para o estudo, os pesquisadores examinaram dados coletados ao longo de seis anos sobre 1.927 pais e adolescentes entre 12 e 18 anos de idade. Os pais e os filhos informaram separadamente qualquer quantidade de álcool consumido pelos jovens durante o estudo. No início do estudo, quando os adolescentes tinham em média 13 anos de idade, 15% deles recebiam bebidas alcoólicas dos pais. No final, quando os adolescentes tinham quase 18 anos de idade, 57% recebiam bebidas da mãe e do pai, informam os pesquisadores em um artigo publicado on-line em 25 de janeiro no periódico The Lancet Public Health. Durante esse mesmo período, a proporção de adolescentes que não tinha acesso ao álcool caiu de 81% para 21%.

Quando os adolescentes informaram ter recebido bebidas alcoólicas dos pais em determinado ano, tiveram uma probabilidade duas vezes maior de ter outro acesso ao álcool no ano seguinte do que os jovens que não receberam álcool dos pais. Isto sugere que receber bebidas alcoólicas dos pais não diminui a chance de os jovens as obterem com outras pessoas. Além disso, o fato de os pais darem bebidas alcoólicas aos filhos não pareceu ajudar os adolescentes a lidarem com o álcool de forma responsável, constataram os pesquisadores.

No final do estudo, 81% dos adolescentes que receberam álcool dos pais e de outras pessoas informaram ter um consumo excessivo de álcool, ou consumir mais do que quatro bebidas em uma única ocasião, em comparação com os 61% dos adolescentes que só recebem bebidas alcoólicas de outras pessoas e os 25% de adolescentes que só recebem bebidas alcóolicas dos pais.

Os adolescentes que receberam álcool tanto da mãe quanto do pai, bem como de outras pessoas, foram mais propensos a ter sintomas de transtornos do uso de álcool. Uma limitação do estudo é que os jovens eram geralmente ricos, e os resultados destas famílias podem não refletir o que aconteceria com jovens de baixa renda, observam os autores.

Além disso, a definição de consumo excessivo – quatro doses de bebida de uma só vez em uma única ocasião no ano anterior – pode ter subestimado a frequência deste hábito para alguns jovens, bem como as conexões entre as fontes das bebidas alcoólicas e o uso excessivo dissimulado, indicam também os pesquisadores. O consumo de álcool em geral também é mais baixo na Austrália do que em outros países, e o estudo não levou em consideração a quantidade bebidas alcoólicas que os pais deram para os adolescentes, apenas se davam ou não.

Também é possível que pais que pensassem que seus filhos adolescentes já estavam em risco de ter problemas com a bebida tenham optado por dar aos seus adolescentes bebidas em casa, e que isso explique por que alguns desses jovens também tinham maiores chances de transtornos por uso de álcool ou uso indevido, observou Stuart Kinner do Murdoch Children’s Research Institute, na Austrália, autor do editorial que acompanha o estudo. “Isso não impediu os jovens de beber de modo inconsequente, mas a oferta de álcool por parte dos pais não fez os jovens beber de modo arriscado”, disse Kinner por e-mail. Ainda assim, os resultados sugerem que o fato de os pais darem bebidas alcoólicas para os filhos adolescentes pode sair pela culatra.

“Há uma ideia de que se os pais fornecerem pequenas quantidades de álcool para os filhos adolescentes, e derem o exemplo de um consumo de baixo risco, esses jovens serão menos propensos a beber de maneira inconsequente”, disse Kinner. “Os resultados deste estudo sugerem o contrário.” (FONTE: http://bit.ly/2EJzRlG)

 

Lancet Public Health 2018.

Fonte: Ganhar álcool dos pais não evita beber de modo inconsequente – Medscape – 5 de março de 2018.

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