Treinamento cerebral por computador melhora a cognição no transtorno bipolar

Em um estudo randomizado e controlado, um programa de treinamento cognitivo feito pelo computador melhorou a função cognitiva em pacientes com transtorno bipolar, e os resultados perduraram além do período do treinamento. “O comprometimento cognitivo tem uma forte associação com a incapacidade e a má qualidade de vida dos pacientes com transtorno bipolar,” disse ao Medscape a pesquisadora responsável Dra. Kathryn Eve Lewandowski, PhD, psicóloga e diretora de programação clínica do Programa de Esquizofrenia e Transtorno Bipolar no McLean Hospital, em Belmont, Massachusetts.

“Infelizmente, na atualidade não existem tratamentos eficazes e padronizados para os déficits cognitivos dos pacientes, de modo que as opções terapêuticas eficazes são urgentemente necessárias. O treinamento cerebral cognitivo demonstrou eficácia em vários grupos de pacientes, e agora também no transtorno bipolar, o que é encorajador”, disse Kathryn, que também é professora-assistente Departamento de Psiquiatria da Harvard Medical School , em Boston. O estudo foi publicado on-line em 27 de outubro no periódico Journal of Clinical Psychiatry.

Reforçando as redes neurais

O estudo foi feito com 72 adultos apresentando diagnóstico de transtorno bipolar com psicose (pelos critérios do manual de doenças mentais da sociedade norte-americana de psiquiatria, DSM-IV, do inglês Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, fourth edition). Os pacientes foram designados aleatoriamente para uma intervenção de remediação cognitiva (39 pacientes) realizada por meio de um conjunto de jogos por computador ou de um controle ativo feito por computador (33 pacientes). O protocolo de remediação cognitiva era o programa Brainworks da PositScience. Este programa contém jogos de “informações de neuroplasticidade” que usam uma abordagem progressiva a partir de elementos individuais até o todo, no intuito de treinar o processamento sensorial durante as primeiras semanas do treinamento. As tarefas de “ordem superior” são acrescentadas à medida que o jogador vai progredindo, observam os pesquisadores. Os programas se autoajustam de acordo com o desempenho do usuário, de modo a manter os participantes trabalhando com 80% de proficiência. Os jogos contêm atividades auditivas básicas e atividades de percepção visual, tarefas de atenção dividida, jogos de memória e de memória de trabalho, e jogos de resolução de problemas. Os jogadores ganham pontos e recompensas virtuais pelas respostas corretas.

O grupo da remediação cognitiva foi solicitado a fazer os exercícios no computador pelo total de 70 horas ao longo de 24 semanas. O grupo de controle ativo foi convidado a passar a mesma quantidade de tempo fazendo exercícios pelo computador, respondendo a testes, como identificar locais em mapas, resolver problemas básicos de matemática e responder perguntas sobre cultura popular. Os índices de conclusão da atividade variaram em cada grupo, mas não variaram significativamente entre os grupos. O grupo da remediação cognitiva completou em média 43 horas, e o grupo de controle concluiu em média 48 horas.

Segundo os pesquisadores, a remediação cognitiva mostrou “efeitos de médios a grandes” na velocidade do processamento (d = 0,42), na aprendizagem e na memória visual (d = 0,92), e no composto (d = 0,80). A superioridade da remediação cognitiva sobre o controle em termos de velocidade de processamento (d = 0,65) e do composto (d = 0,83) perdurou seis meses após o término do treinamento, com discreta melhora agregada.

“Nossa conclusão de que a melhora cognitiva perdurou seis meses após o término do treinamento pelo computador corrobora a ideia de que, uma vez que o cérebro aprimora a execução de tarefas cognitivas, tenderá a manter, ou até mesmo a seguir reforçando, estes processos ao longo do tempo”, disse Kathryn. A remediação cognitiva não foi associada a mudança funcional importante, mas os participantes com melhora cognitiva mais ampla exibiram maior ganho funcional entre toda a amostra. “Acredita-se que o treinamento cerebral por computador estimule a melhora da cognição pelo uso repetido de atividades cognitivas minuciosamente projetadas para modificar as redes neurais por meio da neuroplasticidade. Com o tempo e as reiteradas tentativas, este treinamento intensivo foi projetado para ativar e fortalecer os sistemas neurais que sustentam os processos cognitivos”, disse Kathryn.

“A replicação das nossas descobertas ajuda a determinar a melhor forma de implementar o treinamento cognitivo na prática clínica, bem como a esclarecer as orientações sobre estratégias de eficazes de frequência e intensidade do treinamento”, acrescentou a pesquisadora. A autora observou também que os pacientes pareceram gostar do programa de treinamento cerebral. “Em geral, a resposta dos usuários foi positiva, com algumas pessoas tendo referido que se sentiram felizes de ter participado do treinamento, e que gostariam de recomendá-lo para outras pessoas”, disse Kathryn.

Estudo notável, com ressalvas

“Este estudo é novidade, porque, usando um projeto randomizado bem controlado, os pesquisadores descobriram que um programa de remediação cognitiva concebido para ajudar pessoas com esquizofrenia também trouxe benefícios específicos para pessoas com transtorno bipolar (que também apresentavam sintomas psicóticos),” disse ao Medscape o Dr. Michael Thase, médico, professor de psiquiatria e diretor do Programa de Transtornos do Humor da Perelman School of Medicine da University of Pennsylvania, em Pensilvânia, Filadélfia. A demonstração dos benefícios para os pacientes bipolares “não surpeende — os déficits cognitivos provavelmente resultam de meses ou anos de doença mental grave (incluindo psicose), e não do tipo de transtorno mental, e a aparente persistência da melhora após o término da intervenção formal é digna de nota”, acrescentou o Dr. Thase, que não participou do estudo.

O comentarista também observou que o “rigor do estudo é reforçado pelo uso de um grupo de de controle muito forte, pareado por horas de atividades no computador e credibilidade. Na verdade, os participantes não conseguiriam perceber a diferença entre o programa de remediação cognitiva real e o placebo”. No entanto, existem várias razões para sermos cautelosos, disse o Dr. Thase. “O estudo é relativamente pequeno, e a amostra tem um nível mais alto de instrução e capacidade cognitiva do que o que costuma ser visto no público em geral. Poderia-se esperar piores resultados com um grupo de pacientes mais desfavorecidos”, observou Dr. Thase.

“O programa de treinamento é intenso — o plano foi de até 70 horas de treinamento — e as melhoras específicas só começaram a ser observadas na segunda metade do período da intervenção. O participante médio só fez cerca de quatro sétimos da intervenção planejada”. As diferenças significativas observadas em várias medidas cognitivas não foram associadas a melhora importante da capacidade funcional e da qualidade de vida.

O estudo foi subsidiado pelo National Institute of Mental Health. A PositScience forneceu gratuitamente o programa de treinamento de remediação cognitiva para a pesquisa, mas não teve nenhuma participação no desenho do estudo ou na coleta, na análise e na interpretação dos dados, nem na redação do artigo. Kathryn Eve Lewandowski e o Dr. Michael Thase informaram não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema.

 

J Clin Psychiatry. Publicado on-line em 17 de outubro de 2017. Resumo

Artigo: Treinamento cerebral por computador melhora a cognição no transtorno bipolar – Medscape – 31 de outubro de 2017.

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