Idade da criança é fator fundamental para o diagnóstico preciso do TDAH

Mais evidências mostram que as crianças mais jovens em uma sala de aula têm maior probabilidade de receber um diagnóstico de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) do que seus colegas mais velhos na mesma sala de aula. O estudo confirma um “efeito de idade relativa” no diagnóstico do TDAH, e leva à preocupação de que o transtorno possa ser sobrediagnosticado ou pouco diagnosticado, observam os pesquisadores, liderados por Kapil Sayal, da Divisão de Psiquiatria e Psicologia Aplicada da Escola de Medicina da University of Nottingham, no Reino Unido. “Professores e pais podem interpretar o comportamento de crianças mais novas e mais velhas na mesma classe de forma diferente, porque eles podem não levar em consideração a idade relativa. Por outro lado, as crianças mais velhas na classe que podem ter TDAH poderiam não ser diagnosticadas”, escrevem os pesquisadores. O estudo foi publicado on-line em 9 de outubro no Lancet Psychiatry.

Diagnósticos falso-positivos

Usando dados de registro finlandeses, os pesquisadores identificaram 6136 crianças que haviam sido diagnosticadas com TDAH a partir dos sete anos de idade. Na Finlândia, a matrícula na escola primária começa durante o ano em que a criança faz sete anos, com o início do ano letivo em meados de agosto. Assim, as crianças mais velhas em um ano letivo nascem em janeiro (sete anos e sete meses) e as crianças mais jovens nasceram em dezembro (seis anos e sete meses). A média de idade no diagnóstico de TDAH para a coorte foi de 9,4 anos. Os resultados mostraram que, para meninos e meninas no mesmo nível de escolaridade, os que nasceram no final do ano tiveram maior probabilidade de serem diagnosticados com TDAH do que seus colegas mais velhos nascidos no início do ano. Para os meninos mais jovens (nascidos de setembro a dezembro), a razão da taxa de incidência (RTI) do TDAH foi de 1,26 (intervalo de confiança, IC, de 95%, 1,18-1,35; P < 0,0001) em comparação com os meninos mais velhos (nascidos de janeiro a abril). Para meninas, a RTI correspondente foi de 1,31 (IC de 95%, 1,12 – 1,54; P = 0,0007). O “efeito de idade relativa” foi evidente em crianças com diagnóstico de TDAH na faixa etária de sete a nove anos, mas não entre aqueles diagnosticados com idade igual ou superior a 10 anos. O resultado foi específico para crianças com TDAH e não foi afetado pela presença de transtornos associados, como transtorno de conduta, transtorno opositivo desafiador e transtorno de aprendizagem (desenvolvimento). O “efeito de idade relativa” foi mais pronunciado em crianças diagnosticadas em anos mais recentes (2004-2011) em relação a anos anteriores (1998-2003). “Nossos resultados do estudo ampliam pesquisas anteriores, mostrando que um “efeito de idade relativa” afeta o diagnóstico de TDAH em um país com taxas de prescrição razoavelmente baixas para TDAH, e que a força da associação cresceu nos últimos anos”, escrevem os pesquisadores.

“Se um ‘efeito de idade relativa’ contribui para um viés de encaminhamento e diagnóstico, então talvez um sistema de serviço clínico e educacional que não leva em consideração essa possibilidade poderia contribuir para diagnósticos falso-positivos, especialmente porque as crianças mais jovens da classe têm maior probabilidade de estar em desvantagem educacional, o que pode ser mal interpretado como deficiência acadêmica relacionada ao TDAH”, acrescentam.

Efeito verdadeiro

Comentando os resultados para o Medscape o Dr. Daryl Efron, disse que este não é o primeiro estudo desse tipo. “Alguns grupos de pesquisa estudaram a questão da influência da idade relativa dentro do grupo no mesmo ano escolar na taxa de diagnóstico de TDAH. A maioria dos estudos encontrou algum efeito, e este estudo da Finlândia acrescenta ao peso da evidência a favor de um efeito verdadeiro, que agora foi observado em diferentes países”, disse o Dr. Efron, autor de um editorial que acompanha o estudo. O Dr. Efron, do Royal Children’s Hospital e do Murdoch Children’s Research Institute, em Melbourne (Austrália), observa que os professores e os pais “devem considerar o comportamento da criança em relação à idade dela, e não em relação à série escolar que ela frequente. Se uma criança é muito jovem para a série em que estuda, então as comparações com os colegas de classe dela não são necessariamente um guia significativo para o nível de preocupação. Isso é particularmente importante nos primeiros anos da escola, quando a idade pode variar entre as crianças em até 20%”.

“Os profissionais de saúde”, acrescentou o Dr. Efron, “devem avaliar o estado de desenvolvimento e os sintomas comportamentais de uma criança em relação à idade cronológica dela. Os psicólogos fazem isso rotineiramente ao usar medidas padronizadas por idade. Os pediatras talvez precisem ser lembrados deste ponto”. O financiamento do estudo foi fornecido por Academy of Finland, Finnish Medical Foundation, Orion Pharma Foundation, e Finnish Cultural Foundation. Os autores e o Dr. Efron declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

 

Lancet Psychiatry. Publicado on-line em 9 de outubro de 2017. Artigo, Editorial

 

Artigo: Idade da criança é fator fundamental para o diagnóstico preciso do TDAH – Medscape – 3 de novembro de 2017.

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