Transtornos psiquiátricos na gestação não trazem riscos para as crianças

Transtornos psiquiátricos durante a gestação, incluindo síndrome do pânico e transtorno de ansiedade generalizada (TAG), com ou sem episódio depressivo maior (EDM), não estão associados a complicações maternas ou neonatais, sugere uma nova pesquisa. No entanto, pesquisadores encontraram uma associação entre o tratamento para essas condições e desfechos adversos.

Esse estudo de coorte, que avaliou mais de 2600 mulheres, mostrou que as gestantes que usaram benzodiazepínicos tiveram maior risco de parto cesariano, assim como de baixo peso de nascimento, e de necessidade de suporte ventilatório para o recém-nascido, quando comparadas com gestantes que não usaram os medicamentos.

O uso de inibidores de recaptação de serotonina (IRS) foi associado a hipertensão materna na gestação e a intervenções respiratórias menores no recém-nascido. O uso dos dois tipos de medicamento também foi associado a um risco aumentado de nascimento prematuro, com encurtamento da gestação em 3,6 e 1,8 dias, respectivamente. Mas, “na verdade isso não é muito tempo”, disse ao Medscape a autora principal Dra. Kimberly Ann Yonkers, professora de psiquiatria na Yale School of Medicine, e diretora do Center for Wellbeing of Women and Mothers, New Haven, Connecticut. “É frequente a ideia de que o tratamento de transtornos psiquiátricos é de certa forma opcional, mas não é. Essas são condições graves, e sem tratamento muitas mulheres não conseguiriam levar a gestação a termo”, disse a Dra. Kimberly.

“Então, assim como aquelas com diabetes ou epilepsia, essas mulheres têm direito a tratamento. Nós apenas precisamos fazer nossa própria diligência e entender quais são os riscos e benefícios”. Ela acrescentou que a principal mensagem do estudo é otimista: “É de que mulheres não estão causando danos a seus bebês se elas têm uma dessas condições psiquiátricas”. Os achados foram publicados on-line em 13 de setembro na JAMA Psychiatry.

“Dados imprecisos”

Os pesquisadores observam que, embora pesquisas prévias sugiram uma associação entre transtornos de ansiedade materna e desfechos gestacionais adversos, esses relatos confiaram em dados de registros, que podem ser “imprecisos e podem não considerar fatores de confusão, como tratamento com medicamentos e abuso de substâncias pela mãe”. “Dados de registros podem ser um pouco anêmicos”, disse a Dra. Kimberly. “Parte da razão é que o transtorno de pânico não é fácil de diagnosticar como a depressão. Uma entrevista diagnóstica é melhor para nos certificarmos de que os pacientes têm os sintomas indispensáveis”. Ela acrescentou que o transtorno de ansiedade generalizada (TAG) também não é bem capturado nos dados de registro.

“Então nós estávamos apreensivos quanto a precisão de alguns dados que poderiam estar disponíveis no registro”, disse ela. “Também, enquanto tem havido muita atenção sobre possíveis associações entre desfechos adversos maternos ou neonatais e depressão, ou episódio depressivo maior, ou seus tratamentos, não há muito destaque sobre os transtornos de ansiedade, que podem ser debilitantes especialmente durante a gestação”. O estudo parental da análise de coorte atual foi conduzido entre julho de 2005 e julho de 2009 e incluiu 137 clínicas obstétricas em Connecticut e Massachusetts.

Alguns dos critérios de inclusão foram apresentar 18 anos de idade ou mais e não ter atingido 17 semanas de gestação no início do estudo. Um dos critérios de exclusão foi regime insulínico para diabetes. Entrevistas domiciliares foram conduzidas no início do estudo e entrevistas telefônicas foram realizadas com cerca de 28 semanas de gestação, e cerca de oito semanas após o parto. A versão 2.1 da World Mental Health Composite International Diagnostic Interview foi administrada em cada visita. Além disso, foram administradas a Edinburgh Postnatal Depression Scale, que inclui uma subescala de ansiedade, e a Mini-International Neuropsychiatric Interview,usada para avaliar transtorno de estresse pós-traumático.

Das 2654 participantes (média de idade, 31 anos) incluídas na análise atual, 252 tinham TAG e 98 tinham síndrome do pânico. Além disso, 293 receberam tratamento com IRS em algum momento da gestação, e 67 receberam benzodiazepínicos. Para desfechos adversos, dados de prontuário médico foram usados para determinar peso de nascimento e tipo de parto; baixo peso ao nascer foi definido como menor que 2500g; e a incidência de hipertensão após 20 semanas de gestação ou pré-eclâmpsia foram considerados “doença hipertensiva da gestação”. A aspiração ou sucção traqueal, e a administração de oxigênio foram classificados como “intervenções respiratórias neonatais menores”.

Ansiedade não é fator de risco

Depois de ajuste para potenciais fatores de confusão como idade, raça, nível educacional, tabagismo ou consumo elevado de álcool, e uso de drogas ilícitas, nenhuma das complicações maternas ou neonatais estudadas foram significativamente associadas com TAG ou transtorno do pânico. Transtorno depressivo maior associado a essas condições não aumentou o risco. A falta de associação com desfechos adversos foi um pouco surpreendente, disse a Dra. Kimberly. “Nós achávamos que encontraríamos uma potencial associação, especialmente entre pânico e nascimento prematuro, mas não encontramos”, disse ela.

“Há muitas razões para pensar que diferentes fatores podem explicar algumas das associações encontradas em outras pesquisas”. Conforme demonstrado na tabela a seguir, os tratamentos para TAG ou transtorno do pânico foram relacionados a alguns desfechos adversos.

 

Tabela. Risco ajustado para desfechos adversos por tratamento

 

Desfecho Uso de benzodiazepínicos,
(odds ratio; IC de 95%*)
Uso de IRS
(odds ratio; IC de 95%)
Materno
Parto cesáreo 2,45; 1,36 – 4,40 0,91; 0,66 – 1,20
Nascimento pré-termo 1,98; 0,97 – 4,04 1,56; 1,02 – 2,38
Transtornos de hipertensão na gestação 1,49; 0,53 – 4,18 2,82; 1,58 – 5,04
Neonatal
Baixo peso ao nascer 3,41; 1,61 – 7,26 1,10; 0,63 – 1,93
Suporte ventilatório 2,85; 1,17 – 6,94 0,61; 0,30 – 1,24
Intervenção respiratória menor 1,35; 0,80 – 2,30 1,81; 1,39 – 2,37
*IC de 95% = intervalo de confiança de 95%

 

Combate à literatura “alarmista”

Embora os pesquisadores observem que incluir apenas 98 mulheres com transtorno do pânico pode ter limitado o poder para encontrar uma associação com resultados adversos, a Dra. Kimberly destacou que “98 não é um número pequeno.””Esse é o ponto – ou você tem números muito grandes, e talvez não tenha detalhes ou capacidade de controlar para uma variedade de fatores, ou você tem menos mulheres, mas pode controlar vários fatores”, disse ela. No geral, “pode haver muito alarmismo na literatura e, dessa forma, as mulheres se preocupam se sua doença terá algum efeito sobre o bebê”, disse a Dra. Kimberly. “Eu só quero tranquilizá-las. Só porque elas têm uma doença, não significa que estão contribuindo para problemas na gestação ou no bem-estar de sua prole”.

Quanto aos riscos potenciais associados ao tratamento, “muitas vezes as mães têm a percepção mais clara do próprio risco de recaída se a medicação for interrompida, e essa recaída é relevante para bem-estar delas e da prole”, escrevem os pesquisadores. Eles acrescentam que os clínicos e os pacientes devem discutir a relação risco-benefício específica para o tratamento.

O estudo foi financiado por uma doação do Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Health and Human Development. A Dra. Kimberly relatou ter recebido pagamento por consultoria de Juniper e Marinus Pharmaceuticals, e direitos autorais por um capítulo escrito para o UpToDate. Os demais autores do estudo não relataram conflitos de interesses relevantes.

Fonte – JAMA Psychiatry. Publicado on-line em 13 de setembro de 2017. Resumo

 

 

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