Tratamento da esquizofrenia ganha diretrizes voltadas para a atenção primária

Médicos da atenção primária ganharam uma ferramenta para auxiliá-los no gerenciamento de pacientes com esquizofrenia: diretrizes da World Federation of Societies of Biological Psychiatry (WFSBP). As recomendações publicadas em junho no International Journal of Psychiatry in Clinical Practice trazem a versão que foi especialmente editada para esse público, e foca na abordagem farmacológica do tratamento.

Entrevistado pelo Medscape, o autor Alkomiet Hasan, psiquiatra da Ludwig-Maximilians-University, em Munique (Alemanha), diz que as orientações foram extraídas das partes 1 a 3 das diretrizes da WFSBP para o tratamento biológico da esquizofrenia. “Embora não tenham sido especificamente desenvolvidos para a atenção primária, o modo de apresentação e a seleção de recomendações foram focados para uso nesse nível de atenção”, afirma. Para o desenvolvimento do projeto, o grupo de especialistas alemães contou com a colaboração de pesquisadores de Estados Unidos, Dinamarca, França e Brasil. Segundo o Dr. Hasan, no contexto da esquizofrenia, a atenção primária tem especial importância no tratamento precoce, no encaminhamento de pacientes para especialistas, e também no manejo em longo prazo, o que inclui o gerenciamento de comorbidades somáticas e físicas.

Diante dessa relevância, uma das primeiras orientações fornecidas pelas diretrizes da WFSBP para a atenção primária destaca a necessidade de o profissional estabelecer um plano terapêutico com a aquiescência da família do paciente. Além disso, sustenta que os antipsicóticos de diferentes classes químicas são a primeira linha de tratamento farmacológico para a esquizofrenia. Esses fármacos devem ser introduzidos de forma gradual, prescritos nas dosagens efetivas mais baixas possíveis, combinados (caso necessário) de forma cautelosa, devendo a seleção desses medicamentos ser discutida com paciente e familiares. “A discussão frente a frente sobre o tratamento entre o médico e o paciente é, na verdade, um dos aspectos que considero mais importantes no contexto da atenção primária”, afirma o Dr. Hasan.

Quanto aos antipsicóticos, a publicação destaca que todos têm seu espaço no tratamento da esquizofrenia aguda, e que a escolha deve ser feita com base em uma avaliação rigorosa de risco-benefício. Mas, em pacientes com primeiro episódio, os antipsicóticos de segunda geração – por exemplo, amisulprida, olanzapina, quetiapina, risperidona – devem ser preferidos aos de primeira geração (de alta potência) – por exemplo, haloperidol, perfenazina – como tratamento de primeira linha. Os medicamentos de segunda geração também parecem ser uma opção mais indicada para o gerenciamento em longo prazo, devido a vantagens em termos de descontinuação do tratamento e risco reduzido de efeitos colaterais motores. Porém, efeitos colaterais metabólicos também podem limitar a aplicação dessa classe (segunda geração) em longo prazo.

Para o Dr. Hasan, um dos pontos mais relevantes das diretrizes diz respeito justamente ao monitoramento de efeitos colaterais relacionados aos antipsicóticos e das comorbidades somáticas. “O rastreamento de efeitos colaterais é tarefa importante na atenção primária. Existem muitos efeitos dependentes da estrutura química dos antipsicóticos, sendo os mais frequentes os efeitos colaterais motores, metabólicos, cardíacos e sexuais. No entanto, existem muitos outros – por exemplo, efeitos secundários hematológicos – que devem ser discutidos no contexto do tratamento individual”, diz.

Comorbidades somáticas, tais como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doenças cardiovasculares e doenças infecciosas, também merecem atenção especial de todos os profissionais envolvidos no cuidado do paciente com esquizofrenia, visto que contribuem para o aumento da mortalidade nesse grupo. Dados de um estudo retrospectivo longitudinal feito com uma coorte de pacientes com esquizofrenia atendidos pelo Medicaid mostrou que eles têm propensão ao óbito 3,5 vezes maior do que a população geral, e mortes por DPOC, influenza, pneumonia, diabetes e doenças cardiovasculares são mais frequentes nessa população. As diretrizes da WFSBP reforçam ainda que o tabagismo é um dos fatores que mais contribui para comorbidades somáticas e para o aumento de mortalidade entre indivíduos com esquizofrenia. Assim, a cessação do tabagismo é importante e deve fazer parte do plano de tratamento.

Segundo as recomendações, “todos os pacientes que sofrem de esquizofrenia devem receber cuidados especializados a qualquer momento (de preferência no momento primeiro do diagnóstico)”. Além disso, aqueles que apresentam essa enfermidade aliada a outro diagnóstico, por exemplo, transtorno do uso de substâncias, devem também ser tratados por equipe especializada. Os episódios agudos, aqueles com risco de dano autoinfligido ou a terceiros, e com risco de suicídio, também devem ser acompanhados por atenção especializada.

Fonte: Tratamento da esquizofrenia ganha diretrizes voltadas para a atenção primária – Medscape – 13 de julho de 2017.

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