Aldosterona ligada ao uso e à compulsão pelo álcool

Novas descobertas revelam uma relação entre o hormônio esteroide aldosterona e o risco de transtorno de uso excessivo de álcool, evidenciando o papel dos mecanismos neuroendócrinos subjacentes à compulsão pelo uso de álcool, e em potenciais tratamentos, mostram novas pesquisas. “A via da aldosterona e de seu receptor mineralocorticoide pode representar um novo alvo para o desenvolvimento de tratamentos farmacológicos para pacientes com transtorno de uso excessivo de álcool, disse ao Medscape o Dr. Lorenzo Leggio, PhD, médico e diretor da Seção de Psiconeuroendocrinologia Clínica e Neuropsicofarmacologia do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA),nos National Institutes of Health (NIH) em Bethesda, Maryland.

“Acreditamos que este objetivo possa ser particularmente promissor para as pessoas que tomam quantidades excessivas de álcool no intuito de diminuir o estresse e a ansiedade – isso é tecnicamente o que chamamos de “fase de abstinência/afeto negativo”, sendo um domínio para o qual ainda não temos medicamentos direcionados aprovados”. Produzida nas glândulas suprarrenais, a aldosterona regula o equilíbrio hidroeletrolítico se ligando aos receptores mineralocorticoides. Os receptores, que estão localizados em todo o corpo, estão presentes nas regiões cerebrais ligadas ao transtorno do uso excessivo de álcool – a amígdala e o córtex pré-frontal. Em 2008, o Dr. Leggio e colaboradores publicaram uma pesquisa embasando a tese de que a aldosterona desempenha algum papel nos transtornos do uso excessivo de álcool.

Correlação positiva

Em nova pesquisa publicada on-line em maio, no periódico Molecular Psychiatry, os autores descrevem evidências adicionais que corroboram essa tese, com observações provenientes três estudos. Um dos estudos foi realizado com seres humanos; os outros dois foram realizados com animais. O ensaio clínico foi feito com 42 pacientes dependentes de álcool que faziam parte de um projeto examinando os desfechos secundários endócrinos de um estudo maior sobre a intervenção com baclofeno. Nesse estudo, o baclofeno não teve efeito nos desfechos primários de consumo de álcool, nem nos níveis séricos de aldosterona. Os pacientes foram solicitados a abster-se de álcool durante pelo menos três dias antes do ingresso no estudo e a tentar permanecer abstinentes durante as 12 semanas do estudo. Foi oferecido tratamento médico para ajudar a reduzir o consumo de álcool. Alguns participantes conseguiram manter a abstinência ou diminuir a ingestão de álcool; outros não conseguiram reduzir em nada o próprio consumo de álcool.

Não foram observadas diferenças ao início do estudo entre os níveis de aldosterona dos pacientes que estavam e daqueles que não estavam abstinentes. Após 12 semanas, no entanto, aqueles que não mantiveram a abstinência apresentaram níveis de aldosterona significativamente mais altos (232 ± 57 pg/mL-1) em comparação àqueles que permaneciam abstinentes (134 ± 13 pg/ml-1; P = 0,04). Além disso, observou-se uma correlação positiva entre os níveis plasmáticos de aldosterona e o número de doses de bebida consumidas durante o período de 12 semanas do estudo (P = 0,0007). As medidas dos sintomas de abstinência e da compulsão pelo álcool também estavam relacionadas com os níveis da aldosterona, com níveis mais altos de aldosterona associados a maior desejo de álcool na décima segunda semana, conforme medido por subescalas de transtorno obsessivo e de transtorno compulsivo (P = 0,02 em ambas medidas). As correlações com os níveis plasmáticos de aldosterona mais elevados também foram observadas nas medidas de ansiedade na décima segunda semana (P = 0,03). Este estudo é uma continuação do estudo que a equipe fez em 2008, com pacientes que estavam abstinentes de álcool durante 12 semanas. O novo estudo incluiu uma amostra maior, com pacientes que estavam abstinentes e outros pacientes que não  conseguiram se abster de álcool durante as 12 semanas.O estudo anterior mostrou níveis de aldosterona mais elevados nos pacientes com alcoolismo durante a abstinência precoce de álcool. Estes níveis se normalizaram durante a recuperação.

Confirmação da relação

No novo estudo, “confirmamos a relação entre as concentrações séricas de aldosterona, o desejo e a ansiedade, mas também expandimos com uma nova hipótese, a saber, a relação entre a aldosterona e o consumo de álcool”, disse o Dr. Leggio. “E, de fato, descobrimos que as concentrações de aldosterona foram mais altas entre as pessoas que tomavam álcool, em comparação com os participantes que estavam abstinentes. Além disso, descobrimos que quanto mais álcool a pessoa consumisse, mais altas eram as dosagens da concentração sérica de aldosterona”, acrescentou o pesquisador. Os dois estudos feitos com animais pela equipe fornecem uma visão mais aprofundada sobre a relação entre a aldosterona e o uso de álcool. O primeiro mostrou aumento significativo aos seis meses dos níveis de aldosterona em macacos que receberam etanol; os níveis de aldosterona permaneceram elevados após 12 meses. Não foram observados aumentos nos macacos que receberam apenas água. “Esses dados sugerem que os níveis de aldosterona se regulam em um novo ponto de ajuste (set-point) com o consumo diário de etanol, o que vai ao encontro da hipótese de que o uso regular de etanol produza uma mudança alostática dos sistemas cerebrais do estresse”, escrevem os pesquisadores. Esse estudo mostrou ainda uma correlação negativa entre a expressão do gene do receptor mineralocorticoide NR3C2 no núcleo central da amígdala, e a média de ingestão de etanol durante o período de 12 meses.

No segundo estudo com animais, ratos com baixos níveis de expressão do gene NR3C2 apresentaram maior vulnerabilidade ao consumo de etanol relacionado com a ansiedade em comparação àqueles com altos níveis de expressão do gene. “Esses achados sugerem que os altos níveis de NR3C2 no núcleo central da amígdala possam ser protetores contra o consumo compulsivo de etanol ou, inversamente, que os baixos níveis de expressão do NR3C2 possam resultar em vulnerabilidade ao consumo compulsivo de etanol relacionado com a ansiedade”, escrevem os autores. O coautor do estudo e diretor do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism, Dr. George F. Koob, PhD, concorda que os resultados são eloquentes. “Este trabalho intrigante – realizado com seres humanos, bem como com duas outras espécies – oferece um exemplo convincente de como a pesquisa básica e pré-clínica se traduz em estudos com relevância direta para os seres humanos”, disse Dr. Koob em um comunicado à imprensa dos National Institutes of Health.

Pesquisa inovadora e fascinante

O Dr. Edward V. Nunes, professor de psiquiatria da Columbia University, na cidade de Nova York, observou que estes estudos trazem informações importantes, dignas de novas pesquisas. “Acho fascinante, e precisamos de mais trabalhos dessa natureza”, disse Dr. Nunes ao Medscape. “Houve tentativas de visar o sistema do cortisol, sendo a cortisona o hormônio do estresse clássico que também é secretado pelo sistema adrenal. Mas acredito que o foco na aldosterona para isso seja inovador”. Questões fundamentais ainda permanecem sem resposta, como se as alterações da aldosterona são a causa ou o efeito do consumo de álcool. Novas pesquisas sobre o uso de medicamentos para hipertensão direcionados à aldosterona podem ajudar a resolver essas questões, disse Dr. Nunes. “Existem muitos medicamentos utilizados para o tratamento da hipertensão arterial que visam o sistema da aldosterona, então agora será interessante avaliar esses medicamentos para ver se têm algum impacto comportamental como o uso de álcool por humanos”, disse o Dr. Nunes.

Os estudos foram financiados pelas organizações: Swedish Research Council, Pearson Center for Alcoholism and Addiction Research, Division of Intramural Clinical and Biological Research do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism, Intramural Research Program do National Institute on Drug Abuse, European Foundation for Alcohol Research, the National Institute of Mental Health e a Seção de Psiconeuroendocrinologia Clínica e Neuropsicofarmacologia do National Institutes of Health. Os autores do estudo e o Dr. Nunes informaram não possuir conflitos de interesses relacionados ao tema.

 

Fonte – Medscape – Mol Psychiatry . Publicado on-line em 2 de maio de 2017. Artigo.

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